Secretaria de Cultura de Niterói / Fundação de Artes de Niterói
  "O ARARIBOIA DE PARREIRAS": INTRODUÇÃO
 
 
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Reconhecido e respeitado internacionalmente, o pintor niteroiense Antonio Parreiras (1860-1937) enfrentou na primeira década do século passado, uma polêmica em sua cidade natal, sofrendo mesmo uma pesada campanha difamatória, o que, segundo ele mesmo conta, o abalou como pessoa, mas não como artista. Tudo em razão de uma tela que a prefeitura da cidade lhe encomendou para homenagear a Fundação de Niterói, na verdade ainda uma pequena aldeia no século XVI, e seu fundador, o índio Arariboia.

Em 5 de março de 1906, o vereador José Ferreira de Aguiar conseguiu aprovar uma lei na Câmara Municipal de Niterói sugerindo à Prefeitura de Niterói que contratasse a pintura desse quadro. Meses depois, a pomposa Comissão Glorificadora à Data da Fundação, na pessoa de seu presidente João Antônio da Silva, enviou uma petição ao prefeito João Pereira Ferraz, solicitando que fosse, enfim, autorizada a confecção da obra.

Por óbvio, o chefe do executivo municipal entendeu que deveria encomendar o retrato a Parreiras, artista da cidade e com quem o município já havia contratado outros trabalhos; o que acabou acontecendo, conforme noticiaram diversos periódicos da época:

    "Sabemos ter sido encommendado ao illustre pintor brazileiro, Antonio de Parreiras, daqui filho e aqui residente, a feitura do retrato do indio Ararigboia, fundador de Nictheroy, em ponto grande, para ser collocado no salão nobre da Camara Municipal." (O Seculo, 29 de julho de 1907)

    "Será hoje assignado na Prefeitura Municipal, com o illustre pintor Antonio Parreiras, o contrato para confecção do retrato de Martin Affonso de Souza, o Ararigboia, fundador da cidade de Nictheroy." (O Seculo, 24 de agosto de 1907)
A obra foi contratada por 10 contos de reis, que foram pagos em 3 prestações. Uma entrada de 3 contos na apresentação dos croquis; uma segunda de 4 Contos que foram pagas em maio de 2008; e a última, de 3 Contos, na entrega

A polêmica se dava principalmente em torno do fato de que a Lei aprovada determinava que a obra fosse concebida nos moldes de uma litografia existente na Biblioteca Nacional. Argumentavam os críticos que Arariboia deveria ser retratado com os trajes cristãos, sugestão, desde o início, não acatada pelo pintor. Além de refutar a ideia de um "selvagem vestido", Parreiras observou que a litografia existente na BN, publicada pela primeira vez na coleção "Brazil Histórico" em 1866, não tinha autenticidade reconhecida, sequer era assinada. Em novembro de 1906, o jornal O Fluminense a reproduziu, novamente sem créditos.

Litografia que representa Arariboia, publicada em 1866 na Coleção Brazil Histórico, em 1866. (Biblioteca Nacional)
Ainda que nada houvesse de consistente nos argumentos utilizados contra o projeto, todos relativos ao fato de estar o selvagem representado com trajes de selvagem, ou seja, de tanga, a mediocridade provinciana da cidade ensejou toda a sorte de aborrecimentos.

Ao longo dos dois anos previstos no contrato, o quadro foi pintado em seu atelier em Paris, onde Parreiras estava em temporada, acompanhando seu filho Dakir, que pretendia iniciar nos estudos artísticos.

Em abril de 1909, com a conclusão do trabalho e sua entrega à Prefeitura Municipal de Niterói, chegou ao ápice a polêmica, que, no entanto, não conseguiu intimidar o artista, como não o conseguira o falecimento de sua mãe no mesmo ano. Profissionalmente, Parreiras estava realizado, não devia satisfações artísticas a ninguém.

No início deste mesmo ano, conseguiu finalmente ser admitido, por unanimidade de votos da comissão organizadora, no Salon de la Societé Nationale des Beaux Arts, tendo pintado para isso, duas telas nas quais enfrentava pela primeira vez os desafios da pintura de nu, que ele tão bem descreve em uma das cartas publicadas nessa série.

Em maio, ele já com o quadro praticamente finalizado, enviou de Paris uma carta que foi reproduzida na imprensa local:

    "Extractámos da citada missiva estes trechos preciosos: O quadro Ararigboia fundação de Nictheroy - está concluido. Além deste, levo un outro com que presentearei a Camara Municipal de Nicteroy é um retrato de Ararigboia de tamanho natura, com a roupa, e as insignias de merito, que lhe deu El-Rei D. João IV. O costume que elle veste, feito pelo costumier G. Gibert, um dos melhores de Paris, é todo de sêda e vellado e rigoroso em época. Devo ahi chegar em principios de julho proximo. (A Capital, 27 de maio de 1909)"

O que nos leva a crer que o pintor, talvez com o objetivo de mitigar as críticas, tenha pintado também um retrato de Arariboia paramentado. No entanto, deste quadro ninguém dá notícias. Antonio Parreiras, de fato, chegou ao Brasil com a encomenda, em 4 de julho, a bordo do navio Magellan.

Mas a patrulha moral contra o pintor não se restringia apenas à obra contratada pela prefeitura de Niterói. Como noticiou o Jornal do Commercio em 05 de setembro de 1909, José Luiz de 'Ararigboia' Cardoso, alegando uma suposta descendência natural, protestou perante ao prefeito do então Distrito Federal, Inocêncio Serzedelo Correia, contra a maneira pela qual Parreiras pretendia retratar o glorioso fundador de Niterói, com tanga e pele de onça às costas, no quadro que ele contratou à Prefeitura, alusivo à morte de Estacio de Sá.

Segundo Cardoso, Arariboia em 1560, isto é, cinco anos antes da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, já era Capitão e Cavalheiro da Ordem de Cristo.

A Entrega

Em 28 de novembro, poucos dias após a comemoração do aniversário da cidade, "O Fluminense" anunciou que Parreiras iria abrir as portas de seu atelier, na rua Tiradentes, bairro do Ingá, para apresentação do tão polêmico quadro.

    "A entrada é franca. As pessoas que visitarem o atelier não poderão levar consigo nem criados nem creanças. Os visitantes so serão introduzidos no atelier em grupos de dez pessoas de cada vez. Amanha o quadro não estará mais em exposição." (O Flu, 28 de novembro de 1909)

Nesse dia, esteve no atelier, o presidente da Câmara Municipal de Niterói, o sr. Francisco Guimarães, que felicitou vivamente o artista declarando-se completamente satisfeito com o trabalho, que não podia ter sido melhor executado e com mais verdade composto. No dia seguinte, foi enfim a tela desarmada, assim como a moldura que pesa mais de quatrocentos quilos.

Mas esse período não foi apenas de críticas. Parreiras também recebeu muito apoio da sociedade e na imprensa. Ele próprio se defendeu em artigos publicados nos jornais, e é essa história que queremos contar em detalhes nesta série, de 12 capítulos.

Afinal, como propõe Lucia Kluck Stumpf em sua dissertação "A Terceira Magem do Rio, Mercado e Sujeitos na Pintura Histórica de Antonio Parreiras" (2014), nosso paisagista "foi capaz de estimular a demanda por pinturas decorativas para os espaços públicos que estavam sendo construidos ou reformados a fim de atender as necessidades do novo regime [...] Nestas obras, se combinaram ditames do encomendante e vontade do artista, que, para além de cumprir os contratos, imprimiu nos quadros sua visão da história nacional.

Parreiras voltou a Paris em Janeiro de 1910, e pretendia retornar ao Brasil apenas para a entrega do quadro "Morte de Estácio de Sá", o que aconteceu em 1911.

O quadro "Fundação de Niterói, Martim Affonso de Souza, o Arariboia" se encontra hoje exposto no segundo andar do Palácio Arariboia, antiga Prefeitura Municipal, na Rua da Conceição, Centro da cidade.

Fontes: Jornais "A Capital", "O Fluminense", "O Seculo", "Jornal do Commercio"; e o livro "Antonio Parreiras, Pintor de Paisagem. Gênero e História" (1981), de Carlos Roberto Maciel Levy.


"Morte de Estácio de Sá" (1911), de Antonio Parreiras.



SÉRIE: ARARIBOIA DE PARREIRAS

01 - Introdução
02 - A Encomenda e as Primeiras ideias do pintor
03 - O Contrato
04 - A Cidade Dividida
05 - Fundamentos para a Composição, por Antonio Parreiras
06 - Carta Aberta ao Insigne Pintor Antonio Parreiras, por J. A. da Silva
07 - Petição pede ao prefeito que não aceite o quadro de Parreiras
08 - O Quadro segundo Manoel Benício
09 - Surge Nictheroy, crítica de O Paiz
10 - O Quadro de Antonio Parreiras, por Rubens Barbosa
11 - Manoel Benício responde a Rubens Barbosa
12 - Parreira responde aos críticos






Tags Arariboia, Antonio Parreiras,




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