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  "O ARARIBOIA DE PARREIRAS": A CIDADE DIVIDIDA
 
 
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Acordo perfeito - Aparecem dúvidas - Silva e Hildebrando - Opiniões ilustres - 'Mausinho' não mete a mão em cumbuca - Ferraz indeciso - Ferraz Salomão

Há felizmente ainda, nesta cidade, questões onde a política não mete o bico. Como o sr. Fróes (1) e o sr. Mário (2) à propósito das autoridades policiais; luta o sr. Chiquinho Guimarães (3) contra a inércia da Prefeitura, mas em tratando das festas do valoroso índio Arariboia, mais tarde Comendador da Rosa, fundador da nossa cidade, há um perfeito e louvável acordo.

A maioria dará as verbas necessárias ao Prefeito Pereira Ferraz para as festas a 22 de novembro, e o sr. Ferraz não desviará essa verba mandando vir de São Paulo mais um Aureliano e deixando as ruas esburacadas. Está tudo de acordo, e felizmente o digo.

Ao pintor Antonio Parreiras foi cometido o encargo de perpetuar, em quadro largo e luminoso, a figura do ilustre Martim Affonso de Souza.

Aí, nesse delicado ponto, é que se ia entornando o caldo.

Como pintá-lo?

Desde logo firmaram-se duas correntes fortes e antagônicas. De um lado o sr. Hildebrando de Araújo, secretário perpétuo da Prefeitura, do outro o sr. João Antonio da Silva (4), nosso colega de "O Fluminense". Qual dos contendores é o mais distinto? Qual o mais ardoroso? Ambos o são igualmente e nós outros, patuleia que assiste das torrinhas a luta romana, distribui, quase sem perceber, os aplausos a um e a outro.

Hildebrando quer o herói nu, nuzinho em pelo, de arco e flecha, cavando a terra (desde aquele tempo já se cavava!) para aí no buraco fincar a cruz. Silva prefere-o de casaca, solene, imperturbável e sem fazer cavações.

Os dois não pensam em outra coisa; almoçam Arariboia, jantam-no de casaca e dormem abraçados à figura do fundador. Se encontram, discutem; se não se encontram, descompõem-se.

A cidade inteira está mais ou menos dividida; uns querem Arariboia nu e sem molho, outros opinam pela casaca e o crachá.

Foram consultadas autoridades; o Vitoca declarou que tinha no assunto a opinião do presidente (5), embora o presidente não tivesse ou viesse a ter opinião. O dr. Sá Barreto prefere o nu, por higiene, e o dr. Bormman Borges de casaca, por decência.

Houve quem lembrasse que de casaca ele podia ir ao Lyrico, mas logo retorquiram os adeptos da nudez, que nu, ele poderia ir ao banho - o que é um excelente reclame para as nossas praias onde, segundo os cupons da Cantareira, basta morar para casar.

Nu - declaram os partidários do Silva - ele não poderá ser visto pelas moças e priva-se assim o belo sexo de ir à sala das sessões ouvir a belíssima palavra do sr. Mello e Alvim (6).

Vestido - obtemperam os filiados ao grupo Hildebrando - ele não suportará o calor do entusiasmo do sr. Fróes na atual fase de amor ao sr. Backer.

O sr. Ferraz tem estado contrariadíssimo com tudo isso. Sua divisa é governar em paz, sem brigas.

Quando ele vê uma questão, o seu desejo é logo apartar os contendores. Ele só tem um objetivo: fazer o bem. Nessa prática louvável e cristã, ele, como Mateus, começa pelos seus. Foi para não brigar consigo mesmo que resolveu receber os Seis Contos de Reis ilegais repudiados pelo sr. Leoni Ramos (7).

Foi guiado por esse mesmo espírito de cordura que aumentou empregos e vencimentos e, para não desgostar as facções niteroienses, mandou vir gente de São Paulo.

Ainda pelo mesmo princípio é que não faz melhoramentos e não calça as ruas porque pode, melhorando esta, zangar e aborrecer os moradores da todas as outras.

Levada a questão a ele, se viu embaraçado. Foi ao secretário geral, o dr. Damasceno (8) disse que a sua especialidade é terrenos. Foi ao dr. Veríssimo de Mello (9) por se tratar de polícia de costumes, mas 'Mausinho' (tal o alcunha doméstico do sr. dr. Chefe) não quis meter a mão em cumbuca. O sr. Surucucu (10) está muito atrapalhado entres os dentes do sr. Miguel de Carvalho (11) para se incomodar com o Arariboia.

O sr. Ferraz veio para os braços do sr. Botelho (12) desolado. Segurou porém a Bíblia e pôs-se a ler o Livro das Sentenças de Salomão e tal como a Vieira (não o Aristides Américo que acaba de fazer os seus preparatórios brilhantemente), mas o padre, sentiu um estalo e percebeu que era o gênio que afinal chegava. Mandou depressa chamar Silva e Hildebrando.

Está resolvida a questão: Nem nu nem de casaca. O Arariboia será pintado em fraldas de camisa. E disse.

J. Abelhudo




Notas:

1) Luís Carlos Fróes da Cruz (1852-1924), então presidente da Câmara Municipal de Niterói e pai do ator Leopoldo Fróes.
2) Mário da Silveira Vianna (), então vereador de Niterói;
3) Francisco Xavier da Silva Guimarães (1857-1919), então vereador de Niterói;
4) Joâo Antonio da Silva foi uma das testemunhas da assinatura do contrato para a feitura do quadro;
5) Presidente do Estado do Rio Alfredo Backer (1851-1937);
6) Coronel Mello e Alvim, vereador de Niterói
7) Leoni Ramos, ex-prefeito de Niterói, antecessor de Pereira Ferraz;
8) João Damasceno Ferreira, secretário Geral do Estado;
9) Ignacio Veríssimo de Mello, chefe de Polícia do Estado;
10) Alfredo Augusto (Surucucu), ex-agente da Polícia Federal
11) Político aliado de Backer, provedor da Santa Casa do Rio de janeiro;
12) Provavelmente Francisco Chaves de Oliveira (1868-1943), deputado federal e futuro governador do estado (1910-14)


SÉRIE: ARARIBOIA DE PARREIRAS

01 - Introdução
02 - A Encomenda e as Primeiras ideias do pintor
03 - O Contrato
04 - A Cidade Dividida
05 - Fundamentos para a Composição, por Antonio Parreiras
06 - Carta Aberta ao Insigne Pintor Antonio Parreiras, por J. A. da Silva
07 - Petição pede ao prefeito que não aceite o quadro de Parreiras
08 - O Quadro segundo Manoel Benício
09 - Surge Nictheroy, crítica de O Paiz
10 - O Quadro de Antonio Parreiras, por Rubens Barbosa
11 - Manoel Benício responde a Rubens Barbosa
12 - Parreira responde aos críticos






Tags Arariboia, Antonio Parreiras,




Emmanuel de Macedo Soares (1945-2017)
K. Lixto (1877-1957)
Memória: Dois niteroienses entre os Maiores Brasileiros Vivos em 1924
Manoel Benício (1861-1923)
Cláudio Valério Teixeira (1949 - 2021)


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