ILHA DA CONCEIÇÃO
 
 
Baixe a agenda do mês

Área: 0,98 km2
População: 6438 habitantes (IBGE 2000)

Situada em frente a antiga enseada de São Lourenço, a Ilha da Conceição teve toda sua história de ocupação basicamente relacionada ao mar.

No passado, a área sediava uma fazenda com uma capela datada de 1711, que foi derrubada, parede por parede, sob alegação do padre da necessidade de reforçá-las. Na época ocorreram discussões acirradas com os moradores porque a medida que se construía uma parede por fora, o padre permitia a demolição da parede original. Hoje a capela transformou-se na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A sede da fazenda localizava-se onde atualmente funciona o Centro Social Urbano (CESU).

Há referências quanto a existência de gado na Ilha, presença esta associada ao matadouro que funcionava no Barreto, em frente a um dos antigos cais de acesso à ilha.

Entretanto, a partir do início deste século, se estabelece a relação da ilha com a indústria naval, estreitada com a construção do Porto de Niterói, inaugurado em 1927. Esta relação se manteve quando a ilha se ligou ao continente, em 1958.

No espaço pertencente a Leopoldina Railway (inglesa) instalaram-se na ilha, desde 1908, um estaleiro do Loyd Brasileiro, a oeste, e uma empresa inglesa, ao norte — a Wilson Sons, que fornecia pedras (retiradas da própria ilha) para lastro de navios, para a construção de cais e, também, carvão para navios e locomotivas.

Vários eram os interesses da Leopoldina Railway, principalmente a instalação de um terminal de carvão junto a seu cais. O terminal ferroviário de Niterói foi inaugurado em 1930, junto ao Porto, e a Leopoldina Railway cogitava construir uma linha férrea ligando os dois lados da ilha, para transporte de carvão — então feito pelo mar, através de chatas.

Com a Wilson Sons começa a ocupação efetiva da ilha, incrementada nas décadas de 20 e 30 com imigrantes portugueses trazidos para trabalharem nas suas carvoarias. Havia uma relação respeitosa empresa/empregado, pois os imigrantes iam uma vez por ano a Portugal, de navio, por conta da empresa.

Os trabalhadores ocupavam casas de pau-a-pique (1) nas áreas da Leopoldina Railway, que não permitia construções em alvenaria. Esta ocupação era consentida pela empresa, que apenas cobrava um pequeno aluguel, sem nenhuma preocupação em inibí-las ou em oficializá-las por contrato.

Com tal facilidade, pescadores, operários navais, ferroviários e principalmente imigrantes portugueses, trazidos por informações chegadas à Portugal através dos conterrâneos que aqui viviam, mudam-se para a ilha. Os primeiros em busca de casa própria, os segundos por uma vida nova e também incentivados pelo fluxo migratório no sentido Europa/América existente à época.

Face a indiferença da Leopoldina Railway surgiram construções em alvenaria. O material para construção chegava em barcos e as residências eram erguidas pelos próprios moradores.

Tentando organizar a ocupação das terras, surgiu na ilha um topógrafo da empresa que, segundo alguns, defendia interesses estranhos aos dos moradores (o dele próprio). Desta forma as casas iam sendo erguidas, notando-se hoje um acentuado desalinhamento nas construções.

A Ilha da Conceição, como se configura atualmente, foi constituída a partir da ligação de duas ilhas que, dependendo da maré, podiam unir-se ou se separar por um canal (navegável), sendo formada geomorfologicamente por três morros principais.

A primeira ilha, onde localiza-se o Morro da Fábrica, situa-se na atual entrada do bairro, cujo nome deve-se a existência de uma fábrica de álcool-motor, depois transformada em fábrica de doce e por último transformada em fábrica de sardinha, sendo posteriormente desativada. Esta parte da Ilha teve o seu loteamento feito de forma regular pelo Banco Costa Monteiro, onde observa-se melhor padrão construtivo.

A segunda ilha, área da Leopoldina, era formada pelo Morro do MIC (2), antigo morro da Wilson Sons, e pelo Morro da Capela.

A ligação entre as duas ilhas ocorreu quando da construção do Porto de Niterói, utilizando-se a areia vinda da dragagem do cais. Esta zona arenosa que se formou foi sendo definitivamente aterrada pelos próprios moradores, conforme as construções iam surgindo.

O abastecimento de água era feito por um terminal da Leopoldina e a energia elétrica foi negociada com o Loyd Brasileiro, que permitia a extensão de cabos do estaleiro até as residências.

Em 1958, com a conclusão da ligação ao continente, foi aberta a principal rua da ilha, a Mário Neves, pela Companhia Nacional de Saneamento que tinha interesse na área. Deu-se então, a ocupação da orla da Ilha, principalmente pelas indústrias navais, acabando dessa forma com os banhos de mar dos moradores, já prejudicados pela poluição causada pela criação de suínos em liberdade, intensa à época.

Uma luta antiga dos moradores é pela posse da terra que pertencia à Leopoldina Railway. Estatizada pelo governo federal, tornou-se Estrada de Ferro Leopoldina, sendo posteriormente anexada à Rede Ferroviária Federal S.A.

Em 1987 a Prefeitura Municipal de Niterói comprou as terras litigiosas, com o compromisso de vendê-las aos seus ocupantes.

A Ilha da Conceição é considerada uma colônia portuguesa, cuja presença é marcada pela tradicional festa de Nossa Senhora da Conceição, que peculiarmente tem a comissão de organização constituída com paridade entre portugueses e brasileiros. Esta festa era aguardada ansiosamente por toda a população e contava com a presença de representações diversas da colônia portuguesa, trazidas em barcos emprestados pelos estaleiros. Quase todos os namoros da Ilha iniciavam-se nessas festas.

Entretanto, apesar desta manifestação religiosa, o primeiro padre específico para a paróquia da Ilha chega em 1968. Até então os casamentos, batizados e demais serviços religiosos eram feitos pelo pároco do Barreto.

Além da festa de Nossa Senhora da Conceição, outro prazer dos habitantes era o cinema que existia na Ilha.

Com uma capacidade organizativa muito grande, talvez pela sua formação de imigrantes que, em terras estranhas precisavam se organizar, a população da Ilha teve conquistas sociais de relevância.

  • O empréstimo da energia elétrica pelo estaleiro do Loyd Brasileiro;
  • A regularização do fornecimento de energia elétrica pela CBEE (Cia. Brasileira de Energia Elétrica);
  • A luta pela posse da terra;
  • O reservatório da Cedae;
  • A luta pela escola local, atualmente Escola Estadual Zuleika Raposo Valladares, cuja primeira etapa foi construída através de recursos obtidos pelos próprios moradores.


Outro fator a que se pode creditar a capacidade organizativa do bairro é a presença, entre seus moradores, de muitos operários navais e ferroviários, categorias combativas e bem organizadas sindicalmente até 1964.

O Centro Pró-Melhoramentos (CPM) do bairro foi fundado em 1958 pelo grupo mais organizado dos moradores (os portugueses ficam de fora) e teve papel importante nas conquistas obtidas pelos que residiam na ilha. Mas a diretoria foi afastada em 1964, acusada de ser "comunista", denunciada pelos que a ela faziam oposição no bairro. Os processos contra os diretores do CPM não foram adiante porque o militar encarregado do inquérito exigiu provas concretas, não obtidas pelos acusadores.

A paixão dos moradores podia ser sentida pela rivalidade existente entre os dois clubes locais, cujos jogos terminavam sempre em briga generalizada. Alguns jogos foram realizados fora do bairro a fim de se evitar o confronto das torcidas. O Esporte Clube Azul e Branco, cujo campo existe até hoje, data de 1926 e o Esporte Clube Luzitano, fundado em 1935, possui grande sede social, mas o seu campo foi ocupado para construção da escola estadual.

Uma Subdelegacia chegou a funcionar na ilha, com um titular protegido por políticos com interesses na área. O subdelegado tornou-se uma espécie de administrador informal, controlando desde a marcação das terras até a distribuição de energia elétrica.

A primeira linha de ônibus chegou junto com a ligação da ilha ao continente, em 1958, ainda trafegando por ruas de barro batido. A linha era atendida por veículos da antiga Companhia Serve, veículos em péssimo estado de conservação e com freqüência duvidosa.

(1) Pau-a-pique: parede feita de ripas ou varas entrecruzadas e barro; taipa.
(2) Morro da Ilha da Conceição (MIC).

Fonte: Niterói-Bairros - Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói - 1991




Publicado em 28/06/2013







ÍNDICE DOS BAIRROS DE NITERÓI

REGIÃO DA BAÍA REGIÃO NORTE REGIÃO PENDOTIBA REGIÃO LESTE
Ponta D'Areia Ilha da Conceição Ititioca Muriqui
Centro Barreto Largo da Batalha Rio do Ouro
São Domingos Santana Maceió Várzea das Moças
Gragoatá São Lourenço Sapê
Boa Viagem Engenhoca Badu REGIÃO OCEÂNICA
Ingá Fonseca Cantagalo Jardim Imbuí
Morro do Estado Cubango Maria Paula Piratininga
Icaraí Tenente jardim Matapaca Cafubá
Fátima Viçoso Jardim Vila Progresso Jacaré
Pé Pequeno Baldeador Santo Antônio
Santa Rosa Caramujo Camboinhas
Vital Brazil Santa Bárbara Serra Grande
Viradouro Maravista
São Francisco Itaipu
Cachoeira Engenho do Mato
Charitas Itacoatiara
Jurujuba





Publicado em
Tags ,


Exposição relembra os tempos de escola
"Memórias da Rua" leva fotografias históricas para as Praças
Niterói comemora 440 anos com grande programação cultural
Historiador do DDP-FAN lança "Os bispos católicos e a ditadura militar brasileira"
História de Niterói
Rua Presidente Pedreira, 98, Ingá - 24210-470, Niterói - RJ | Telefone (21) 2621-5050 | E-mail sculturalniteroi@gmail.com (secret) e contato.culturaniteroi@gmail.com (FAN)