por Divaldo de Aguiar Lopes, em agosto de 1955

Constitui uma tradição de Niterói, o culto de Nossa Senhora da Conceição, que se pratica na mais importante capela da freguesia de São João Batista.

Aliás, as tradicionais festas religiosas realizadas aos oito de dezembro de cada ano datam dos tempos em que capelinha ainda, fora reconstruída, com o produto de esmolas angariadas pelo devoto mestiço Afonso Correia de Pina, no mesmo local onde existia, antes de 1663, uma tosca ermida, a deduzir-se de um legado de "5$000" deixado, para o templozinho, em testamento, por José Gonçalves, falecido aos 30 de dezembro de 1663.

Para levar a efeito a mencionada iniciativa, aquele devoto, popularmente conhecido por "Pai Correia", logrou obter, dos herdeiros do velho chefe indígena Arariboia, cognominado o fundador da cidade, cessão do terreno, conforme escritura de 27 de agosto de 1761, passada no tabelião Manoel Cardoso Leitão.

Concluídas as obras da modesta capelinha, pobre de qualquer ornamento, e de simples perspectiva, tornou-se, com o correr dos anos, pequena demais para conter o número sempre crescente dos devotos da Imaculada Conceição, que, aos domingos e feriados, subiam, em romaria, pela encosta do morro ainda hoje com o nome da gloriosa santa, transmitido também, à via pública fronteira e ali terminal, para dar começo à rua Dr. Celestino.

GRAVURA

A vetusta igrejinha, com suas singelas linhas arquitetônicas e a brancura das paredes de cal, contrastava com o imponente cenário ao fundo, onde vicejavam abundantes e negros ciprestes a destacarem-se da mata que cobria o local. Constituía, tudo isso, lindo motivo para uma gravura, como atesta em 1848, esplêndida estampa de autoria das hábeis mãos de J. Schutz, aproveitada no livro "Museu Pitoresco" por onde se vê quão interessante e poética era a capelinha, e já bem imponente nessa época, assente no final da ampla escadaria e com linhas arquitetônicas bem semelhantes as que, em nossos dias lhe é peculiar.


Gravura de J. Schutz publicada em Museo Pittoresco, 9 de dezembro de 1848



Esse relicário que fora, como vimos, reerguido por "Pai Correia", sempre que esteve precisando de reparos e ampliações, valeu-se da caridade dos fiéis. Nos tempos em que Niterói era dividida em amplas propriedades, em mãos de abastados fazendeiros, dentre os quais destacavam-se o Capitão Manoel José de Bessa e sua esposa, D. Helena Francisca Casemira, cujas terras finalizavam na encosta do morro da Conceição, muito zelaram e contribuíram eles para a conservação dessa capelinha.

"TE-DEUM"

Com a elevação em 1819, do antigo Arraial à categoria de "Vila Real da Praia Grande", e ao ser empossado José Clemente Pereira no cargo de Juiz de Fora da nova Vila, que a magnanimidade do rei D. João VI resolvera elevar à classe e dignidade de Vila Real, houve, logo após a posse daquele magistrado, uma proposta dirigida à Câmara pelos vereadores, no sentido de todos os membros dessa casa legislativa comparecessem ao "Te-Deum" na capela da Conceição, para "render graças ao Todo Poderoso pelo benefício que ao povo da vila e seus termos havia feito na criação da vila". O povo afluiu para a capelinha, onde, efetivamente houve aquele solene ato religioso, ao qual os convidados, nobreza, vereadores e povo em geral, - assim prestigiaram.

TRANSFERENCIA

Até a construção do templo de São João Batista, orago da freguesia e que lhe serviria de sede e cujas obras foram iniciadas, em 1821, no "Rocio Municipal" erguido no alinhamento da hoje rua Visconde de Itaboraí, a sede da freguesia, por ordem do Juiz de Fora José Clemente Pereira, foi transferida provisoriamente da capela de N. S. das Necessidades (a nossa contemporânea do Rosário), para a da Conceição que se viu, assim, investida nessa alta categoria, adquirindo mais prestígio, pois todos os atos religiosos importantes da Vila, até 1831, quando foi concluído o já mencionado templo, ali foram realizados.

Com a instalação dos Poderes da Província e a escolha da Vila para capital da mesma, passou então, a antiga "Vila Real da Praia Grande" a denominar-se "Niterói" sendo elevada à categoria da Cidade (Leis ns. 2 e 6, de 26 e 28 de março de 1835). Continuou a capelinha a ser um local procurado pelos fiéis e concorrentes das suas tradicionais festas religiosas.

"ALPENDRE DA MORTE"

Em 1770, o templozinho foi restaurado, e já nessa época era administrado por uma irmandade criada com o patrimônio estabelecido de "400$000".

O cemitério que ficava ao lado da capela, e era o único da cidade, todas as vezes que tangia a finados o sino da igrejinha mostrava a quem para lá olhasse o lúgubre féretro subindo a longa escadaria, ou esvoaçando, ao sopro da brisa dos umbrais da porta, o pano mortuário chegando até à rua o eco das vozes e dos hinos sacros e do capelão encomendando o corpo, quando o morto era importante.

Sobre a porta da "catacumba", "alpendre da morte" havia como trágica e funéria advertência àqueles que a transpunham levando ou seguindo a carga mortuária num último preito de reverente saudade, o dístico "nós fomos o que vós sois, e vós sereis o que nós somos..."

A CONFRARIA

A irmandade de N. S. da Conceição, por força da Provisão, de 20 de novembro de 1850, do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Manoel do Monte Rodrigues de Araújo (Conde de Irajá), tomou o nome de Confraria de N. S. da Conceição de Niterói. Foi permitido, também, "a prerrogativa do uso de hábitos e capas pretas, cordões brancos e escapulários azuis". "A confraria é administrada por dois órgãos distintos: Mesa Conjunta e Mesa Administrativa. A primeira é a reunião dos irmãos da mesa Administrativa e dos que já tenham exercido, cargos anteriores administrativos. A segunda é composta por dezoito membros, seis oficiais - Prior, Vice-Prior, Secretário, Tesoureiro, Governador e Zelador e 12 definidores, sendo que destes um é o Superintendente do Cemitério".

ORNAMENTAÇÕES

O culto de Nossa Senhora da Conceição e as vistosas procissões continuaram através dos anos e, já a cerca de 70 anos passados, ainda eram imponentíssimas, porque desde o "Largo do Mercado" (Praça Martim Afonso), a partir da "Venda de Varanda" (onde hoje se vê o prédio do Café Santa Cruz), até o "Largo do Capim" (atual sede da Prefeitura) e desse ao adro da Capela, era o trajeto engalanado com galhardetes, festões floridos, flâmulas multicores e dezenas de lanternas, emprestando à rua da Conceição um bizarro aspecto. As fachadas das casas comerciais da referida artéria, apresentavam-se quase todas iluminadas; o chão, fronteiro às mesmas, tapizados por folhas de canela soltas, cadeiras, sofás e genuflexórios; das sacadas e janelas pendiam ricos chalés e deslumbrantes colchas de seda e rendas.

FESTEJOS

O "Martins do Gás", que não perdia seu tempo, fazia a já esperada e tradicional "rifa de cavalinhos", oferecendo a Irmandade cerca de 40% dos lucros que obtinha. Dava gosto vê-lo muito apressado, sem querer confiar nos auxiliares, vendendo, por toda a parte, os bilhetes que custavam "200 réis".

Escudando-se num pregão mal ensaiado, o "Chico Ilhéu", que vendia peixe durante o ano inteiro, nos dias oito de dezembro surgia com uma linda cesta, vendendo coloridas e perfumadas maçãs, laranjas e bananas, recomendando aos fregueses que atirassem a um canto as escorregadias cascas. Na farmácia do "Boticário Ernesto", reuniam-se inúmeros facultativos, com suas respectivas famílias para dai assistirem à imponente procissão. O Marinho, à noite, dava, em sua bela residência, esplendido baile, sempre iniciado por um concerto de harpa, cujo principal integrante era a encantadora filha Dona Ritinha.

PROCISSÃO TRADICIONAL

A festa máxima da "Imperial Cidade de Niterói", título concedido por D. Pedro II, para honrar a nossa cidade que tão cordialmente o acolhera (Decreto de 23 de agosto de 1841), sempre foi a aparatosa procissão que aos 8 de dezembro, saía da "Capela da Conceição, da Santa Virgem".

De todos os recantos afluíam devotos. As "pontes" de atracação em "São Domingos" e "Praia Grande" regurgitavam de embarcações de múltiplos tipos, tripuladas por robustos negros escravos. Desde as 6 horas da manhã daquele dia, os vaporzinhos da empresa, que faziam o transporte entre as duas margens, não davam vazão ao elevado número de passageiros que chegavam à "Imperial Cidade", a fim de assistirem os festejos. Engalanavam-se os caminhos dos arrabaldes. O movimento, nas ruas de Niterói, dos fiéis, de roupa nova, sapatos luzindo, joias e xales rendados, constituíam sem dúvida um desfile mundano e pitoresco.

A tardinha a procissão pelas vias públicas, tapizadas de folhagem solta, caminhava, cadenciadamente, o andor da Virgem, acompanhado por personalidades da nobreza, políticos, clero e povo em geral. Fiéis de joelho em terra, contritos, cabisbaixos, orando e persignando-se.

O itinerário era o seguinte: rua Direita da Conceição, Largo Municipal (hoje Praça D. Pedro II), ruas D'El-Rei (moderna Visconde do Uruguai), da Praia (Visconde do Rio Branco) e Largo Martim Afonso (hoje praça Arariboia).

NOTA PITORESCA

A procissão que percorria, talvez por tradição, o citado itinerário, era sempre imponentíssima. Desfilava dentro do mais profundo e respeitoso silêncio religioso, somente perturbado pela cadência dos tambores.

Seguindo o rico andor da Virgem da Conceição, em seus uniformes de gala, viam-se os comandantes e os oficiais do Corpo Policial e da Guarda Nacional. Emprestando uma nota pitoresca ao cortejo, surgiam atrás com armas brancas em riste, dando rasteiras no ar, os “navalísticos”, capoeiras e malandros conhecidos por "Grupo dos Guaymús", "Nagoas", etc., e que, com caras e gestos de facínoras eram estranhos devotos de N. S. da Conceição.

Finda a procissão e o "Te-Deum", a festa prosseguia, no adro da capela, e nos coretos, onde havia música, sob o pregão dos leiloeiros vendendo prendas e fazendo mil e uma graças, gesticulando e berrando, sendo dentre esses mais populares o "Domingos das Almas", o "Messias" e o "Formigas", os quais em tal encenação constituíam verdadeiro espetáculo cômico.

Nos dias atuais, ainda é realizada essa procissão tradicional, porém das faustosas comemorações só resta a lembrança que o tempo não pode destruir.

Publicado na revista Guanabara Fluminense em agosto de 1955
Pesquisa e edição de Alexandre Porto

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Publicado em 28/12/2021