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  QUIRINO COMPOFIORITO (1902-1993)
 
 
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Pintor, crítico de arte, professor, caricaturista e gravador, Quirino Compofiorito nasceu num dia 7 de Setembro, ao som do Hino Nacional. Isso, em Belém, do Pará, no ano de 1902, quando sua família residia em frente a um quartel. Filho do pintor e arquiteto italiano Pedro Campofiorito, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1912, e logo em seguida para Niterói, quando seu pai foi convidado a projetar o Centro Cívico, no Centro da cidade, conjunto de prédios públicos no entorno da atual Praça da República.

Enquanto artista, Quirino nunca se limitou aos estreitos limites de seu ateliê de pintor. Ele mesmo reconhece que sua vida de pintor foi diferente da vida comum dos pintores. "Eu sou daqueles raros exemplos que sempre atropelaram a assiduidade do ateliê de pintor com uma dedicação, igualmente assidua, a outras atividades que me movimentavam em espaços bem existentes", reconheceu o artista.

Quirino Campofiorito
Aluno de Modesto Brocos, Rodolfo Chambelland, João Baptista da Costa e Augusto Bracet na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), onde se matriculou, à revelia do pai, em 1920, começou sua vida de pintor recebendo prêmios e conquistando o máximo para a época - a Viagem ao Estrangeiro, em 1929. "Meu pai queria que eu fosse advogado. Chegou a me dar dinheiro para me matricular em Direito. Saí para a matrícula, mas no caminho entrei na Enba e fiz minha inscrição. Ele acabou me dando força."

Temporada na Europa

Pensionista da Enba, viveu com a esposa, e também artista, Hilda Eisenlohr (1902-1997), na Europa durante cinco anos, frequentando os centros de artistas mais em voga e visitando os grandes museus de Paris e de Roma. Na capital francesa, principalmente, o jovem artista brasileiro fixou seus estudos e foi um frequentador assíduo da Académie de la Grande Chaumière. Expôs no "Salon de la Société des Beaux Arts" em 1931 e no "Salon d'Automne" em 1933. Em Roma, estudou na Ecole di Belle Arti e frequentou os cursos do Círculo Artístico e da Academia Inglesa de Roma.

Em 1935 teve que literalmente fugir da Itália fascista, para evitar que a polícia política do "Duce" chauvinisticamente impingisse a ele e ao filho que crescia no ventre de Hilda a cidadania italiana.

O pintor e architecto Quirino Campofiorito, premio de Viagem da Escola Nacional de Bellas Artes em 1929, e sua esposa, Hilda Eisenlohr, tambem pintora, que seguiram hontem para a Europa, a bordo do "Almirante Alexandrino". Revista Fon-Fon, 31/05/1930.
Sua formação inicial deu-se entre os rigores acadêmicos, sendo o desenho seu principal instrumento de aprendizagem, com especial atenção ao estudo do nu e ao modelado. A temporada na Europa significou novos rumos para sua pintura, apontados pela arte simbolista e pela pintura metafísica italiana. Estas influências podem ser sentidas desde sua produção dos anos 1930.

A partir desse período, Quirino dedicou-se às questões centrais para pintura modernista no Brasil, como a forma simplificada e a tensão do espaço figurativo ao manipular as leis da perspectiva. Defensor da arte figurativa, entre seus temas encontram-se a observação de tipos populares e seus vínculos com o universo do trabalho. Uma de suas mais reconhecidas obras, o quadro "O Operário (1932)" apresenta-se como um retrato de classe, marcado pela expressividade fisionômica e pelas formas protuberantes das mãos acostumadas à labuta.

Escultura "Retrato do pintor Quirino Campofiorito", de Joaquim Figueira (Salão Nacional de Belas Artes, 1942)
De volta ao Brasil, em 1934, trabalhou na organização da Escola de Belas Artes de Araraquara, interior de São Paulo, instituição que dirigiu entre 1935 e 1937, criando também o Salão de Belas Artes da mesma cidade. Inspirado em sua temporada na Itália, em 1938 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e passou a ter o dissabor de enfrentar a repressão politica do Estado Novo.

Participou ainda do grupo de artistas criadores da Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes e foi nomeado professor interino da Enba em 1938, ocupando a cadeira de desenho artístico até 1949, quando prestou concurso para a cadeira de artes decorativas. Integrou o Núcleo Bernardelli, tornando-se seu presidente em 1942. O núcleo foi um grupo criado por pintores modernistas, em 1931, com o objetivo de oferecer alternativa para o ensino oficial da Escola Nacional de Belas Artes, enfatizando a liberdade de expressão artística.

Esteve também em outra mostra de significação histórica: a de Arte Moderna de Belo Horizonte, em 1943, e lutou pela criação do Salão Nacional de Arte Moderna.

Viajou à Europa em 1957 a serviço da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para observar programas de ensino, visando à reforma do regulamento da Enba. Tornou-se vice-diretor da Escola em 1961 e recebe o título de Professor Emérito da UFRJ em 1981.

"Retrato de Quirino" (aos 30 anos de idade) - óleo sobre tela (1932)
O artista foi homenageado em 1971 pelo Museu da Imagem e do Som com o prêmio "Estácio de Sá". A premiação, destinada a personalidade que haja estimulado e animado setores da vida artística no País foi dada, pela primeira vez em sua história, a um crítico de arte, que sendo pintor e professor nesta multiplicidade de atividades, sempre foi, pela palavra escrita, um crítico, aliás o decano desta atividade cultural no Rio, havendo começado a escrever sobre artes plásticas em 1926, no diário "A Reação".

Em 1979, na Galeria Anna Maria Niemeyer (Gávea-Rio de Janeiro), onde realizava uma exposição, recebeu o prêmio de Artista de Destaque do Ano, pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. Quirino foi agraciado com uma escultura de Mauricio Salgueiro (promoção do INAP Funarte).

Suas obras



Quirino Campofiorito possui quadros em várias galerias entre os quais poderemos citar: Museu Nacional de Belas Artes, Museu Mariano Procópio (Minas Gerais), Galeria Núcleo de Belas Artes de Araraquara, Galeria da Escola de Belas Artes de Pernambuco, e Coleções Particulares no Brasil e no exterior.

Teve seus trabalhos expostos nos Salões de Maio da Associação dos Artistas Brasileiros, no Salão Paulista de Belas Artes, Salões do Núcleo Bernardelli, Salão Fluminense de Belas Artes, Salão de Belas Artes de Araraquara e muitas outras exposições coletivas no Rio e nos Estados, merecendo destaque especial a Exposição Internacional da Califórnia, Estados Unidos da América, em 1938, no Museu da Imagem e do Som, em 1973 ("Sumário Retrospectivo"), e a homenagem pelos seus 80 anos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em 1982. As comemorações dos 90 anos do artista, em 1992, foram na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes. Na década de 2000, o Solar do Jambeiro, em Niterói, criou uma exposição permanente de sua obras e de sua esposa.

O Escritor

Capa da revista Rio Social, 1943
As dificuldades dos anos de 30 para fazer uma exposição, divulgar seus trabalhos, obrigou Quirino a viver de ilustrações, ensino, e jornalismo. O tempo para pesquisa sobre a pintura praticamente deixou de existir. Além de pintor, Quirino teve uma notável cultura artística, sendo autor de uma infinidade de trabalhos sobre artes plásticas, que lhe deram uma grande projeção. Colaborou ainda em vários jornais e revistas no Brasil e no exterior.

Em 1917, já colaborava com a Revista Tico-Tico, com desenhos e contos. No ano seguinte, já dirigia o quinzenário "O Escolar". Em 1926, estreou como colunista de arte no jornal "A Reação. Em 1935, fundou e dirigiu o periódico mensal "Belas Artes", o primeiro no Brasil dedicado exclusivamente à arte, e que circulou até 1940. Trabalhou como ilustrador nas revistas Tico-Tico, Revista Infantil e publica charges nos periódicos "A Maçã", "O Malho", "D. Quixote", "Rio Social" entre outros trabalhos que o aproximam das artes gráficas, frequentando as oficinas de impressão.

Desenho de Quirino para o livro, "Dostoievski".
Entre os seus mais relevantes escritos acadêmicos, podemos citar: "Orientação do Ensino de Artes Decorativas"; "A Compreensão da Forma para a realização de uma obra de arte" e "O impressionismo e a confusão na pintura moderna". Em sua produção literária, sempre ressaltou a necessidade de profissionalização da atividade do crítico de arte e identificou uma colaboração mútua entre a história da arte e a crítica.

Em 1965, ilustrou o livro "Itinerário da Paisagem Carioca", de Nestor de Holanda. Em 1964, escreveu para a Revista 'O Cruzeiro' o artigo "No Mundo Maravilhoso de Djanira" uma longa e rica apresentação da obra da artista paulista. Em 1983 publicou "História da Pintura Brasileira no Século XIX" (Editora Pinakotheke), obra referencial para o estudo da arte oitocentista, pela qual recebe o Prêmio Jabuti.

No livro, apresentou o contexto geral e destacou os principais artistas de cada período. Partiu de um breve traço biográfico para desenvolver considerações estéticas, atentando sobre as rupturas nos processos de amadurecimento dos artistas. Em 1986 publicou o livro "A Pintura de Bustamante Sá" (Cabicieri Editorial).

Fez parte de um grande número de associações culturais entre as quais a Associação dos Artistas Brasileiros (Diretor de Artes Plásticos); o já citado Núcleo Bernardelli; o Instituto Brasileiro da História da Arte; a Associação Artística Plástica Pedro Américo; a Academia Fluminense de Letras (Divisão de Artes Plásticas) e a Liga da Defesa Nacional ("Comissão de Arte").



Legado

Inúmeros foram os serviços prestados por Quirino aos artistas plásticos da corrente modernista. Como professor e como animador, teve um papel de destaque no desenvolvimento das artes brasileiras. Como membro da Comissão de Arte da Liga da Defesa Nacional, realizou a Feira de Arte Moderna (Associação Brasileira de Imprensa - 1943), e trabalhou na realização da Feira de Arte Moderna no Estado do Rio e em São Paulo.

Como crítico de arte, participou intensamente do debate sobre o abstracionismo nos anos 1950, travado por críticos como Mário Pedrosa. Assim como outros artistas e intelectuais modernistas, resistiu à chegada da arte abstrata ao Brasil, argumentando que ela fugia à proposta de modernização cultural baseada no reconhecimento das raízes populares. Quirino compreendia a arte abstrata como um projeto de tendência elitista, enquanto a arte figurativa é acessível a todos.

Autorretrato
Como educador, ajudou a reformar o sistema de ensino artístico no brasil, buscando uma prática atenta às diversas demandas da sociedade contemporânea, como a relação entre o desenho e a produção industrial nas artes gráficas, tecelagem etc.

Quirino Campofiorito sempre se comportou como um artista, como um lutador pela divulgação das artes ou pela formação de novos artistas. Foi um grande animador que via sempre qualidades no estreante, que estimulava sempre um idealista e que, mesmo fora da sala de aula, se mantinha como um mestre que zelava essencialmente pela liberdade de seus discípulos. Politicamente ta,mbém nunca se omitiu. Aposentado em fins da década de 1960 pelo AI5, guarda esse episódio com um sentimento de orgulho. "Se eu não tivesse sido cassado, acho que teria morrido, não estaria hoje comemorando meus 80 anos", disse em uma entrevista em 1992. "Pra mim, isso é como um reconhecimento de que não fui conivente com tudo isso que o Brasil passou desde 1964", completou.

Aposentado em fim da década de 60 pelo Al-5, quando lecionava na Enba, guarda desse episódio um sentimento de orgulho: "Se eu não tivesse sido cassado pelo Ato 5, acho que teria morrido, não estaria hoje comemorando meus 80 anos. Pois, para mim, isso é como um reconhecimento de que não fui conivente com tudo isso que o Brasil passou desde 64", afirma.

A cineasta Tizuka Yamasaki escreveu em 1973 que "hoje, em mais de 50 anos dedicados inteiramente no fazer e analisar a arte brasileira, Quirino conseguiu pelo menos duas coisas notáveis: não ficar milionário e não se prender a qualquer corrente, seja ela estética, de geração, ideológica. Sua constante atualização e sua formação clássica lhe permite entender a pintura como um processo , nunca preso às correntes, que segundo o próprio Quirino, tanto conduzem a algum caminho determinado, como seguram a criatividade do artista, numa visão semântica e crítica da palavra que fazem a originalidade do pintor como jornalista." (leia em Quirino Campofiorito - 50 anos de pintura, por Tizuka Yamasaki)

O artista morreu em 1993 e desde então empresta sem nome a uma galeria de arte no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, no bairro de Icaraí, em Niterói.

Durante as comemorações do IV Centenário de Niterói, em 1973, escreveu num opúsculo relativo à exposição comemorativa que fez, na antiga Galeria do Campo, na rua Lopes Trovão, em Icaraí: "Acompanhei o meu tempo. Não com a velocidade que este impunha para segui-lo lado a lado. Procurei, porém, não ficar muito atrás, o que pode ser constatado na totalidade da obra que realizei (...)".

Discordamos Mestre. Não ficou.

Crítica

    O quadro "Praia" mostra bem o valor pictórico do seu autor. A par de uma cor bem amena para a visão do espectador, há como que um sentimento muito marcado nas figuras, nos peixes e em todo o ambiente. Aquilo que Quirino exprime em sua pintura é bem a representação do valor humano do artista. As figurinhas do fundo simbolizam a espécie humana em seu desdobramento e ao mesmo tempo a própria vida do pintor na sua etapa atual. Os peixes estão no primeiro plano e são de tal forma vivos e harmoniosamente plasmados, que emprestam a todo o quadro um grande ambiente de ternura. Em conjunto, pode-se dizer com segurança que a característica mais saliente nesse quadro é a ingenuidade sempre tão presente na obra do artista e uma das qualidades mais apreciadas hoje em dia na pintura. (Por Sylvia de Leon Chalreo, Revista Rio Social, 1943)


(1) Composição, 1935
(2) O Operário, 1932
(3) A Camponesa, 1944
(4) Nu, sem data
(5) Ricordo Di Roma, 1941
(6) Revista 'O Cruzeiro', 1944
(7) Revista 'Tico-Tico', 1919
(8) anos 1930
(9) Desmonte do Morro Castelo, 1946






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