Um selo não serve só pra passar na língua e colar num envelope endereçado a um amigo em algum lugar distante. Um selo pode ser musical e mais, pode ser de domínio de uma cidade. Niterói é o único município no mundo que possui uma marca para talentos locais: o Selo Niterói Discos, que já tem um irmão, o Selo Niterói Livros.

Bia Bedran, Márcia Helô, Elaine Guedes, Ricardo Mansur, Veríssimo e muita gente boa fazem parte do rol seleto desta grife. Agora é a vez dos instrumentistas mostrarem sua cara. Alex Martinho e Zé Mauricio são capazes de rivalizar com Joe Satriani e Al di Meola

Zé Maurício reúne experiências pessoais em seu primeiro disco

Ele já tocou com o polêmico Tim Maia durante dois anos, na década de 70, mas está na estrada desde os anos rebeldes. Os movimentos juvenis pipocavam por todo o mundo a partir de 1960 e Zé Mauricio começava a tocar guitarra em bandas que amimavam festas e barzinhos, quando não faltavam os famosos 'hi-fis', onde garotas levavam os petiscos e os boyzinhos, as bebidas. Eduardo Dusek contou com a competência e o talento do "Zé" que gravou dois discos junto com o cantor, na época de Cantando no Banheiro.

Zé Mauricio sempre traçou tudo e começou a frequentar os estúdios, gravando Jingles para comerciais de TV, se tomando conhecido no meio musical. Já ia longe o tempo em que ele começou a dedilhar uma guitarra com o amigo Antônio Pedro, baixista da Blitz. Em 1992, a sorte foi lançada e o instrumentista ganhou de presente o convite para integrar o 'cast' do Selo Niterói Discos.

"Sem dúvida, foi um passo gigantesco na minha carreira. É maravilhoso o trabalho que se faz no selo, onde quem grava não precisa ter nascido em Niterói, mas tem que comprovar que morou aqui pelo menos cinco anos. Aos 42 anos, vejo um sonho realizado, graças à Funiarte que dá apoio ao meu trabalho através do divulgador Paulo Renato".

O disco teve a colaboração especialíssima do baixista Arthur Maia, que tinha em comum com Zé Maurício o bairro onde moravam: Itaipu. Acabou ficando tudo em família. Em um mês Zé gravou seu primeiro disco no estúdio de Robertinho do Recife, onde pôde aplicar toda sua influência dos Beatles e Rolling Stones. No disco gravado, com possibilidades de se tornar CD, as faixas lembram o funk e o 'rhythm and blues'. A primeira música é "Z-Shuffle", que abusa do slide guitar. Depois vem "Tessi", outra instrumental com harmonia rebuscada, batizada com o nome da filha. "Derady" faz uma homenagem ao guitarrista latino-americano Carlos Santana. Niterói/Rio lembra as idas e vindas do artista para levar a cabo seu projeto musical ainda no LP "Blues For Old Friends, Blues Brothers e Ovni".

Alex Martinho estreia em CD alternando baladas com rock'n'roll

Pelo visto a terra de Araribóia é pródiga em dedos hábeis sobre cordas. Alex Martinho, ainda é garotão, tem 23 anos, aparência de heavy metal, com aquele cabelo que dá vontade de meter uma tesoura, mas isso pouco importa, o que conta mesmo é o talento e o profissionalismo. Com 13 anos, em plena explosão do rock Brasil ele ganhava sua primeira guitarra, o tempo passou e a paixão foi crescendo. Montou a banda "OverDrive", tocando em casas noturnas daqui e do Rio.

Em 1991, deu a louca em Alex, que abandonou a faculdade de economia na UFF, entrou num avião de carreira e foi parar no Musicians Institute de Los Angeles (EUA), considerada a melhor escola de música do mundo. Frequentou o curso durante um ano, aprimorando a teoria, já que técnica, tinha de sobra. O danado acabou recebendo um certificado ao concluir o curso, com ônus, o que significa que ele foi um dos melhores.

"Um sonho, uma determinação. Foi nesse contexto que em 91, como se todo o universo conspirasse de maneira irresistível, surgiu aquela oportunidade única e com ela novos horizontes. O ano em que passei em Los Angeles foi um mergulho de corpo e alma na noite escura. Uma experiência fascinante. A cada dia surgiam derrotas e vitórias na conquista da minha lenda. "Ao contrário do que a razão poderia dizer, o destino definitivamente guia o coração e não a razão", contou Alex Martinho, fã ardoroso do mago Paulo Coelho.

No final de 1992, Alex apresentou uma fita demo à Niterói Discos, que o convidou para gravar um CD em maio de 1993. Lançado no mês passado, o álbum reflete sua trajetória musical: "Meu Caminho, Horizontes", "L. A.", "A Lenda (intro)", que significa o objetivo a alcançar, "A Lenda (Parte I)", "Viagem, De Volta Pra Casa", Porto dos Sonhos", "A Outra Parte", uma referência à namorada Ana Gabriela e, fechando o repertório, "A Lenda (Parte II)". As composições instrumentais se dividem entre baladas e rock, bem ao gosto brasileiro.

O CD "Alex Martinho" reflete, ainda, as influências, musicais de Ed Vam Halen, Yngwie Malnsteen e Paul Gilbert, o que de monstra o alto nível de suas criações. O acompanhamento da gaita de Jeferson, do Baseado em Blues, e do teclado de Zelly Mansur se destacam.

Os álbuns "Zé Maurício" e "Alex Martinho" tiveram 1.000 exemplares de tiragem e são agora um cartão de visitas diante das grandes gravadoras. Eles podem ser encontrados na Center Sound (Galena do Cinema! Rua Moreira César) e City Laser (Galeria Center V - Rua Gavião Peixoto).

Por Luiz Fernando Dias, para O Fluminense








Publicado em 03/05/2021