Show de lançamento do CD Na cabeça na Caixa Cultural | foto: Alexandre Moreira. Clique para ampliar
Uma das vozes mais elogiadas da recente safra de intérpretes do samba – que tem na redescoberta da Lapa seu circuito referencial -, o niteroiense Marcos Sacramento Rimoli não se encaixa em rótulos. Taxá-lo simplesmente por um estilo é deixar de ver vários lados do artista. Sacramento é hoje um intérprete capaz de alinhar em um mesmo roteiro delícias de Noel Rosa ou Cartola com contemporâneos os cariocas Luis Capucho e Luiz Acofra e o paulistano Paulo Padilha.

Nascido em 1960, Sacramento estreou como cantor de uma banda de pop/rock "Cão Sem Dono", uma espécie de vanguarda carioca em meados dos anos 80, que ele dividia com Paulo Baiano (teclados), Paulo Brandão (baixo) e Bernardo Quadros (bateria). Mesmo assim no disco que gravou como integrante do grupo trazia uma releitura para Sinal fechado, hit de Paulinho da Viola. Ainda fazendo parte da banda, em 1986 Sacramento foi parar em um disco do Selo Funarte cantando Custódio Mesquita. Em 1987, foi convidado, juntamente com Marlene, a integrar o elenco do show para o lançamento do disco "Custódio Mesquita - Prazer em conhecê-lo", na Sala Funarte, em temporada de duas semanas, sempre com grande sucesso.

Entre 1988 e 1989, realizou vários shows com o grupo vocal "Figuras" e, ao lado da cantora Rita Peixoto (depois Rita de Cássia), atuou no espetáculo "O outro lado". Em 1989 foi a vez de Sacramento cruzar seu caminho com o grande ídolo Orlando Silva, que viveu na novela Kananga do Japão, produção da Rede Manchete.

Em "A Modernidade da Tradição", seu primeiro trabalho solo, o cantor se encontrou com o violão de Maurício Carrilho e com a percussão de Marcos Suzano. Lançado no Brasil pelo pequeno selo Saci tornou-se artigo procurado, ainda mais com o crescente interesse pela obra do cantor. Três anos depois da edição brasileira saiu na Europa, EUA e Japão pelo selo francês Buda Musique. A repercussão foi maior, e o álbum foi considerado o melhor disco brasileiro em 1997 pela prestigiada revista francesa Le Monde de la Musique. O ciclo trouxe nova vida ao disco, que ganhou relançamento no Brasil em 2008 pela Biscoito Fino.

Ainda em 1994 Sacramento fez shows de lançamento do disco e participou de outra homenagem a Custódio Mesquita. No ano seguinte seria a vez de encontrar a obra de Baden Powell em uma série de shows com a cantora Clara Sandroni. Esse espetáculo rendeu um registro em estúdio, lançado em 2002. Sacramento e Sandroni ainda se juntaram em 1999 para, dessa vez, homenagear o compositor Sinhô em um show. Esse novo encontro, acompanhado pelo grupo "Lira Carioca", rendeu três CDs, o primeiro no mesmo ano, um segundo volume em 2001 e o terceiro em 2002.

Em 1996, gravou uma faixa no disco coletivo "Ovo - Novíssimos" ao lado de nomes ascendentes da cena carioca como Pedro Luís, Fred Martins, Mathilda Kóvak, Suely Mesquita, Arícia Mess, Serjão Loroza, entre outros.

Em 1998 Sacramento lançou o álbum "Caracane" pelo selo paulistano Dabliú. Nesse CD apresentava suas próprias composições em parceria com Paulo Baiano, além de voltar a autores como Sérgio Natureza, Antonio Saraiva e Fernando Morello. Seu trabalho como compositor também rendeu o álbum 'Fossa Nova' ao lado do pianista Carlos Fuchs, parceiro nas músicas. O disco, gravado ainda em 1998, só foi lançado em 2005.

Com o nome bem comentado e despertando cada vez mais atenção para sua música, em 2003 Sacramento lançou o álbum "Memorável Samba" pela Biscoito Fino. Abrindo um novo tempo em sua carreira, o disco recebeu diversos elogios da imprensa, com sua leitura especial para sambas compostos entre 1932 e 1955. O show seguiu esse sucesso com apresentações no Brasil e Europa durante três anos.

O sucesso abriu caminho para o CD "Sacramentos", lançado novamente pela Biscoito Fino em 2006. Primeiro disco batizado com seu nome continuou a incursão por autores clássicos como Noel Rosa, Ataulfo Alves, Cartola e Baden Powell. Sacramento assina uma parceria com Paulo Baiano e ainda incluiu nomes contemporâneos como Fátima Guedes e Luiz Flávio Alcofra, autor da faixa título, homenagem a Sacramento: 'Do canto eu fiz minha fé", dispara a letra. Em suas interpretações, a arquitetura sonora que segmenta as atuais casas noturnas da Lapa ergue-se sob os alicerces do Café Nice dos bambas atemporais.

A incansável busca por novidades para seu repertório faz Sacramento se multiplicar. Ainda na estrada com o show que resume sua carreira, em 2008 montou novo espetáculo com sonoridade variada e espaço para diversas experiências musicais. No mesmo ano participou do projeto "Interseções" cantando valsas brasileiras no palco sagrado da Sala Cecilia Meireles. O projeto foi encerrado com apresentação do pianista italiano Stefano Bollani, que convidou Sacramento para participar de seu show no Festival Umbria Jazz Orvieto, em janeiro de 2009.

Em junho de 2009 a Biscoito Fino lança "Na Cabeça", o quarto CD de Marcos Sacramento por essa gravadora. O disco foi gravado à moda antiga. Ou seja, músicos e cantor tocando ao mesmo tempo e juntos. Com Zé Paulo Becker e Luiz Flavio Alcofra comandando os violões de 6 cordas e Rogério Caetano no violão de 7, o trio se mostra bastante entrosado entre eles e com as nuances da voz de Marcos. Com uma precisa escolha do repertório, "Na Cabeça" tem algumas músicas consagradas e bastante conhecidas como "Minha Palhoça" (J. Cascata), "Último Desejo" (Noel Rosa) e "Sim" (Cartola e Oswaldo Martins).

Em 2010, com arranjos contemporâneos, criados por Luís Filipe de Lima a partir a linguagem dos tradicionais regionais de samba e choro, Marcos Sacramento lançou em parceria com com Soraya Ravenle o CD "Breque moderno" (Rob Digital). O disco traz repertório baseado em sambas-de-breque e sambas-choro, muitos deles dialogados, alguns especialmente criados para o teatro de revista, como "Tem que rebolar' (José Batista e Magno de Oliveira), "Quem é?" (Custódio Mesquita e Joracy Camargo) e "Boneca de piche" (Ary Barroso e Luiz Iglésias). O disco foi resultado do show criado por Luís Filipe de Lima para a série “Samba de breque e outras bossas”, em cartaz no CCBB de Brasília em 2006 e no CCBB carioca, em 2007.

Ainda em 2010 participou do musical "É com esse que eu vou", escrito por Sérgio Cabral e Rosa Maria Araújo e dirigido pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, ao lado de Soraya Ravenle, Alfredo Del-Penho, Beatriz Faria, Lilian Valeska, Makley Matos e Pedro Paulo Malta. Em 2011 apresentou-se no Teatro Carlos Gomes, em show realizado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, para comemorar o centenário de nascimento do compositor Assis Valente.

Em 2012 gravou com o violonista Zé Paulo Becker o CD "Todo mundo quer amar", álbum que celebra as parcerias. Canções que nasceram nas mãos de Zé Paulo Becker e na pena de Paulo César Pinheiro para ganhar vida no violão de Zé Paulo e na voz de Marcos Sacramento. A ideia original de Zé Paulo era registrar algumas composições inéditas para colocar na internet. Produção entre amigos logo pensou na voz de Sacramento, convite imediatamente aceito. A seleção inicial, feita pelos dois, tinha um forte traço em comum: todas tinham letra com a assinatura de Paulo César Pinheiro. Ali nascia a ideia de um disco.

Em 2013 participa de "Ary Barroso - do princípio ao fim", musical com supervisão artística Amir Haddad, com Diego Vilela no papel título e Tânia Alves. Na pele do pai de Ary, Sacramento se destaca cantando "Três Lágrimas", do compositor homenageado. Ainda em 2013, participa de "Forrobodó - um choro na cidade nova", montagem baseada na revista musical de Chiquinha Gonzaga, Luiz Peixoto e Carlos Bettencourt. Com direção de André Paes Leme e direção Musical de Maria Teresa Madeira, Sacramento divide o palco com Flavio Bauraqui, Érico Brás, Juliana Alves e Pedro Miranda.

O talento dá as possibilidades, a inteligência cria os caminhos. Sem seguir receitas ou se adequar aos rótulos de mercado, Marcos Sacramento voa dentro de sua música. O único compromisso que assina é com sua liberdade de escolher o que canta. Nessa visão ampla do artista a música não tem fronteiras. Quando fala de sua cidade natal, se emociona: "É minha cidade natal. Toda a minha família é de Niterói e foi nessa cidade que cresci e me criei. Foi onde fiz minhas primeiras e mais importantes descobertas, enfim, meu berço."

Com Soraya Ravenle, no show Breque Moderno no Teatro Rival Petrobras | foto: Alexandre Moreira. Clique para ampliar


    Crítica

    "Todo mundo quer amar traz o samba popular em linhagem sofisticada. A poesia precisa de Paulo César, o violão elegante de Zé Paulo e a interpretação explosiva de Sacramento: um encontro que não tem chance de erro e nem dúvidas. “Moço com molejo e moça com cintura bamba / E quem é de fora até pára para admirar”. A gente samba junto." Beto Feitosa

    Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker - show no Sesc Pompéia (São Paulo) | foto: Paulo Neto. Clique para ampliar
    "Se a maioria das pessoas que compram discos fizesse isto por causa da música, o cantor carioca Marcos Sacramento estaria há anos encantando muito mais gente do que apenas os privilegiados que o admiram. Do jeito que as coisas são, no entanto, ele continua a ser um dos segredos mais bem guardados da música popular brasileira—segredo este bem conservado pelas gravadoras, pela televisão, pelo rádio e pelas casas de shows, mais ocupadas com os talentos menores ou fabricados que pululam na praça. Na condição de um daqueles felizes privilegiados, só posso fazer tsk, tsk pelos que ainda não tiveram o prazer de conhecê-lo." Ruy Castro

    "Tudo o que ele canta cresce na sua voz. E mais: o seu bom gosto na seleção das músicas, sejam novas ou antigas é tão grande que o mínimo que posso dizer é que, se eu fosse cantor gostaria de ter um repertório igual ao dele." Sérgio Cabral

    "Sacramento — com seu canto que une ritmo, força e malícia — é uma das grandes vozes de sua geração." Leonardo Lichote







Publicado em 10/05/2013
Museu Antônio Parreiras