Texto de Juvenillo Pereira, apresentando Carlos Couto como novo colunista de O Fluminense , em 20 de abril de 1975

Ele veio do Porto, como Pedro I, e foi morar na Rua da Aclamação, hoje Pereira da Silva. Vizinhos tinha dois, nem precisara mais: Humberto de Campos e Georgina de Albuquerque. Como Pasternak, em relação a Skriabin, aspirou cultura antes de aprender a ler. O que faria com Marília Matoso, mais tarde, depois de passar pelo genuflexório de caroços de milho do Asilo de Santa Leopoldina, aliás, o Asilo admitira Couto e outro menino para uma experiência de manejo com o sexo homem. Não deu certo. Não podia dar.

Um dia montou no burro de um tripeiro e saiu pelo mundo, conhecendo coisas. Um mundo maistreano, talvez maior que um quarto, mas menor que um bairro cheio de natureza. Naquele tempo havia árvores, havia Icaraí e havia manhãs, para não contradizer Drummond. Tinha 4 anos. Voltou de noite, levou uma surra e dormiu tranquilo com suas descobertas: valeu a pena. A frase, mastigada, na cama, seria um símbolo de vida. Da vida de Carlos Couto, montado no burro do tripeiro até hoje, experimentando as coisas boas e a liberdade de ser, custe o que custar.

Foi aí que descobriu o teatro

Couto foi para o Colégio Brasil, onde obteve a glória que poucos conseguem: foi o último da classe. Nisso o pai recebe uma herança em Portugal, para onde mande o "Carlinhos", devidamente uniformizado de aluno do "Almieda Garret", um dos melhores ginásios do Porto. Ficou ali seis anos. Como Casimiro no Colégio Freese, fez tudo em busca da tuberculose. Menos feliz que o poeta, a tuberculose não veio. Mas veio a guerra, e os sonhos se realizaram: estava de volta ao Brasil e no pavor dos estudos.

Apesar disso ingressou no Liceu, onde iria fundar o Grêmio Nilo Peçanha, por volta de 1944. Quando deu por si tinha acabado o curso e estava na Faculdade de Direito, convencido pela namorada, uma das muitas mil herdeiras do Barão de Cocais. Queriam os dois a perfeição em leis para lutar em Londres pelo ouro inatingível do Barão. Couto não chegou a defender a herança. Mas chegou a Juiz Substituto de Maricá.

Foi por aí que descobriu o teatro. Deixando o Liceu, ia fundar e dirigir o teatro da falecida União Fluminense de Estudantes, que deu bons espetáculos no Município de Niterói. Apesar de amadores - a maioria, como o próprio Couto, vinha do Clube Dramático Fluminense, de João Pinto – não abriam mão da bilheteria.

E não tiveram mau resultado. O niteroiense pagou pra ver estudante fazer teatro, e gostou. A estreia foi com uma peça de Lyad de Almeida. "Quem Ama Sabe Esperar", por volta de 1946. O sucesso foi grande. Nos jornais, esparramavam-se comentários elogiosos. Um dos comentaristas era Roberto Silveira, então ensaiando a caneta no “Diário da Manhã”. Muito mais pródigo era Honório Pacará, que através da critica de "O Estado” não poupara elogios nem adjetivos. Depois se descobriu que Pacará era o próprio Couto.

E então a Virgem beijou Judas

Lá uma bela semana-santa o grupo levou "O Mártir do Calvário". Couto era o Judas, Zezé Macedo a Virgem Maria. Na hora do enforcamento, o galho se partiu e a asfixia de Judas se fez pela cintura. Roído pela raiva, Couto deu de chorar. Fechado o pano às pressas, a Virgem corre para consola-lo, numa penca de beijos muito pouco cristãos. Na plateia, nem sombra de riso. Ao contrário, a turma aplaudiu e o contrarregra não teve outro jeito: abrir de novo o pano. Foi então que o drama do Calvário ganhou dimensões novas. Judas beijando a Virgem era coisa que plateia nenhuma havia visto, em qualquer parte do mundo. Nesse dia o pano subiu doze vezes. Couto atravessou a baía e foi fazer o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno juntamente com outros niteroienses. Um deles era Lyad de Almeida, hoje Juiz do Trabalho, seu candidato a Hamlet.

Algo podre no reino da Dinamarca

Veio a representação de "Hamlet", cujo papel principal quase ficou com Lyad. Paschoal, porém, preferia Sérgio Cardoso, por ser mais gracioso. Foi um sucesso e um grande começo para o jovem Sérgio, de quem Couto conserva curiosas lembranças. Outro nome que se lançara: Maria Fernanda. Certa vez Paschoal nomeou Carlos Couto - ele tem a carta - diretor do TEB , em suas ausências. Quando assumiu a direção do grupo Couto mandou pagar uma opípara ceia de pão e manteiga para os seus atores, cansados e famintos. Paschoal não iria per doá-lo pelo esbanjamento. Sabendo disso, Orlanda Carlos Magno, irmã do Embaixador, cassou-lhe o mandato e rebaixou-o outra vez.

Sergio Cardoso, logo depois, já consciente de seus valores, pleiteou de Paschoal remuneração mais robusta. Foi despedido. Então, o Teatro do Estudante foi buscar Carlos Couto para o lugar do amigo, e ele não aceitou. Sérgio, homenageando-lhe a solidariedade, ofereceu-lhe a primeira figura do "Teatro dos Doze", de que era empresário o pai de Sérgio Brito. Ia começar uma segunda fase na vida de Couto: a profissional, em que seria dirigido por Ziembinski e Procópio, entre outros, até formar companhia própria - "Companhia de Comédias Carlos Couto” que estrearia no Municipal de Niterói, em 1952, com Aurora Aboim.

De cronista a empresário. E burro à porta

Depois de outros tantos projetos e outros textos sucessos, Couto montou de novo no burro do tripeiro e só voltou ao teatro como espectador. E o burro do tripeiro levou-o a outros novos mundos, através das redações de jornais. Já tinha de experiências boas, nesse campo, assinando crítica teatral para "O Estado", por volta de 1946. Passou então para a rádio Cruzeiro do Sul, onde levara ao ar e coluna “No Mundo do Teatro”, que durou cinco anos. Depois passou a fazer "Seu Manuel, Seu Joaquim e a Balbina - Furteleze d'aquém e d'além Mar", na mesma Cruzeiro do Sul, substituindo Berliet Junior. Experimentou adiante a Eldorado e a Guanabara. Mas o burro do tripeiro tinha de trazê-lo de volta a Niterói, onde passaria a fazer "Ontem, Hoje, Amanhã", uma crônica diária para “O Fluminense”. Era 1954.

Daqui foi para o Grande Jornal Fluminense, em 1956. Lançou logo depois "Coisas de Praia Grande", na TV Rio, dedicado e Niterói. Seria o primeiro programa do gênero, em todo o Brasil, impondo movimento às técnicas de telejornalismo, ainda muito verdes. Era e época das entrevistes tipo "que prato você mais gosta" e da Neyde Aparecida soletrando "To-ne-lux !!”. Couto mexeu nessa coisa toda e começou a jogar gente no palco, tocando, dançando e até falando mesmo. Ampliou-o por volta de 1958, apresentando até 61 "O Estado do Rio na TV", em que mostrara município por município, com seu progresso, sua gente e suas coisas curiosas, um misto de "Amaral Neto" e "Fantástico". Através da TV lançou um slogan que ninguém esqueceu: “Niterói Merece”.

De repente era empresário. Aliado aos Irmãos Falcão, cismou de lançar em Niterói um semanário tabloide, circulando aos domingos e impresso em duas cores: "Praia Grande em Revista". Ali implantou "Viveremos Amanhã", uma página inteiramente dedicada aos jovens. Ao lado de veteranos como Pedro Guedes Alcoforado, Luís Antônio Pimentel e Alcides Machado Gonçalves. Alojados em outras áreas do jornal, surgiam os nomes de Esther Lúcio Bittencourt, Ricardo Augusto dos Anjos, Iderval Garcia, Décio Mafra, seus mais constantes colaboradores.

A poesia das ruas e sementes

Por ai vai, que a vida de Couto não é romance: é uma enciclopédia. Uma viagem à Europa, algumas aventuras em Paris, meia dúzia de crônicas antissalazaristas que puseram em pé de guerra a "colônia", e, vez por outra, uma volta às origens. "Espetáculos Carlos Couto", programa que levou na Difusora, foi fruto de uma delas. Entre silêncios rápidos e descobertas ruidosas, Carlos Couto parece de repente e reaparece adiante, fazendo sempre outra coisa. Em 1965 descobriu “O Homem da Rua”, um sistema de crônicas, pelo rádio, em que namora um dos temas que mais o encantam: a gente. de pouco nome e muita alma. Sucesso até hoje. Mas hoje Couto já é outra coisa.

Deu de vender somente, o que chega ser uma atividade comercial: é ainda o puxão das origens, o apego à terra, e não há coisa mais bela do que fazer a terra produzir suas flores e frutos. Por isso, talvez, correndo sempre atrás da poesia, onde quer que ela esteja, Couto sentiu a necessidade já não mais de fazer - ele já era poeta - mas de mostrar seus poemas. E assim nasceu mais uma novidade: um livro de poesia, vendido nas ruas e praças a meirinhos e bispos, almirantes e carteiros, magistrados e mendigos. O primeiro livro de poesia vendido na rua, numa linguagem comunicativa e direta, cheia de símbolos e mensagens que cada um interpreta a seu modo, mas sempre humanisticamente.

Eis ai Carlos Couto. Cantor do amor e de morte, da descrença e da fé, e, para arrepios de Pound, da própria usura, não precisara de apresentações. Insatisfeito e livre - que fora disso não vive - é o mais novo colaborador do “Encontro”, onde lança semana que vem o seu "Homem da Rua", trazendo coisas e impressões dos cantos por onde anda, montado no indispensável burro do tripeiro.





Publicado em 27/05/2021
Museu Antônio Parreiras