Com atuação no teatro, na TV e no cinema, o ator e dublador niteroiense, Isaac Bardavid participou de dezenas de produções, entre peças, novelas, minisséries, especiais, programas humorísticos e filmes, mas hoje é mais lembrado como um dos mais populares dubladores brasileiros, emprestando sua voz para personagens como o Esqueleto do desenho "He-Man" e o Wolverine. Sua origem judia turca lhe rendeu personagens marcantes na TV como o Tartan, de "Salve Jorge" (2012) e Abbas, da minissérie "Dois irmãos" (2017). No Teatro atuou em montagens icônicas, como Gota d’Água e Rasga Coração.

Filho do comerciante Haim Bardavid (da tradicional Casas Sion) e de D. Victória Bardavid, Isaac Bardavid nasceu em Niterói a 13 de fevereiro de 1931, na Rua Gal. Andrade Neves, 22. Cursou o primário nos G.E. Baltazar Bernardino (em Santa Rosa Rosa) e Silva Fontes (no Centro). Concluiu o ginásio estudando no Colégio Figueiredo Costa e no Liceu Nilo Peçanha, onde iniciou o Científico (ensino médio), que foi concluído no extinto Ginásio Anchieta. Fez vestibular de filosofia, estudou dois anos no curso de línguas neolatinas, mas trancou matrícula. Só em 1976, aos 45 anos de idade, graduou-se em Direito.

Sócio de seus dois irmãos (Aron e Joya) na empresa criada por seu pai, foi responsável pela organização de vários espetáculos em benefício da Sociedade Fluminense de Assistência aos Lázaros.

Teatro, o início de tudo

Isaac Bardavid
Quando em 1948, Carlos Couto decidiu montar o espetáculo "O Dote", de Artur Azevedo, pelo grupo de teatro da União Fluminense de Estudantes, Bardavid foi convidado a pregar cartazes de propaganda da peça. Passou sua primeira noite fora de casa nessa tarefa e, como recompensa, ganhou duas entradas para assistir a montagem, que acompanhou dos bastidores. O ponto do teatro - pessoa que lia os textos em voz baixa para os atores, que assim não precisavam decorar todas as falas - passou mal e Bardavid foi chamado a substituí-lo, pontando o espetáculo forma impecável. Desde então nunca mais deixou a cena.

Estreou como ator na montagem de "O Mártir do Calvário", de Eduardo Garrido, ainda em 1948. Nela, com apenas 17 anos, representou um homem de 80. Em 1949 participou de uma montagem no Liceu Nilo Peçanha, "Fantasia", sob a direção de Abelardo Figueiredo. A esse espetáculo comparecem os renomados diretores Pascoal Carlos Magno e Maria Jacintha, que o convidaram, respectivamente, para o Teatro do Estudante e para o Teatro de Arte do Rio de Janeiro. Bardavid aceitou o de Maria Jacintha. Como um dos principais nomes da Companhia, estreou em 1949 no Theatro Municipal de Niterói, com a peça "Dias Felizes", de Claude-Andre Puget, contracenando com Dalila Geraldo, Nely Rodrigues, Nicete Bruno e Narto Lanza.

Em 1950, novamente pelas mãos de seu grande amigo e parceiro Carlos Couto, atuou numa revista encenada pelos alunos do Instituto de Educação. Com o amigo, integrou ainda o Clube Dramático Fluminense, ao lado de Zezé Macedo e Luiz Odracir. Em seguida, ingressou no Teatro Educativo do Instituto La-Fayette, atuando em "O Dote".

Em 1952 excursionou, com a Companhia de Comédias, também com Carlos Couto, pelo Nordeste, Minas Gerais e São Paulo. Com a companhia atuou também nas peças, "Pedido de Casamento", "Duas Ostras no Paraíso", "O Atentado", "Nina", "Viúva, Porém Honesta", "A Luva", "Os Inimigos Não Mandam Flores", "Helena Fechou a Porta", e "O Rei Maracá", sempre no Theatro Municipal de Niterói. Daí, começou a ser muito solicitado, devido à memória privilegiada, ao vigor cênico, e à riqueza de inflexões.

Em 1953, Bardavid entrou para a Escola Dramática Martins Pena, atuando na peça infantil, "A Banana Que Gostava do Macaco", com Beatriz Veiga, Carlos Murtinho e Eloísa Menezes. No mesmo ano, em sua cidade natal, atuou na peça, "Será Que Papai Noel Existe?", de Talita Miranda, ao lado de Maria Stella Pacheco da Costa, dedicada ao Natal dos Pobres Lázaros.


Bardavid em Salve Jorge, 2012. João Miguel Júnior/Globo.


No mesmo ano, retornou ao Teatro de Arte do Rio de Janeiro, de Maria Jacintha, atuando na peça, "A Dama da Madrugada" (1954), interpretando seu primeiro protagonista, contracenando com Nathalia Timberg, Beatriz Veiga, Ribeiro Fortes e Jorge Gonzaga. Ficou até 1955 na companhia.

Em 1955 dirigiu a companhia "Os Interpretes", que montou espetáculos como "Irene", de Pedro Bloch, "O Príncipe e o Regente" e "Mortos sem Sepultura", de Jean Paul Sartre. Em 7 de outubro do mesmo ano, embarcou com um grupo liderado por Paschoal Carlos Magno, para a Europa, onde estudou canto e dramaturgia. Na viagem, esteve ao lado de atores e atrizes, como Othon Bastos e Tereza Raquel.

Como diretor, em 1958 obteve destacada classificação no Festival de Teatro Amador, promovido pela Fundação Brasileira de Teatro, com "Mortos sem Sepultura". Em 1959 integrou o grupo Teatros Novos Comediantes, liderado por Ruth Escobar e, no ano seguinte, o MECA (Movimento Estudantil de Cultura Artística, de Niterói), onde voltou a trabalhar com Maria Jacintha. Em 1961, integrou o grupo teatral da União Fluminenses de Estudantes (TUFE), onde estreou dirigindo, no Theatro Municipal de Niterói, o espetáculo "A Beata Maria do Egito", de Rachel de Queirós.

Já um artista muito vinculado à televisão, Bardavid se destacou em três grandes sucessos teatrais: com o Grupo do Teatro Jovem em "O Santo Inquérito" (1966), de Dias Gomes, com direção de Ziembinski, tendo no elenco Eva Vilma, Vinicius Salvatori e Paulo Gracindo; no musical "Gota d’Água" (1975), de Chico Buarque e Paulo Pontes, estrelado Bibi Ferreira, Oswaldo Loureiro, Roberto Bonfim e Bete Mendes; e em "Rasga Coração", do Vianninha, em 1979, quando viveu o Camargo Velho, um chefe comunista. Foram marcantes também, em sua trajetória, o infantil "Viveiro de Pássaros" (1981), de João de Barros, o Braguinha, quando contracenou com Grande Othelo; "O Julgamento de Otelo" (1983), de Lyad de Almeida; "Vestido de Noiva" (1989), de Nelson Rodrigues; "O Dibuk" (1989), do dramaturgo russo Anski; O Guarani (1998); e "A Força do Destino" (2006), entre outras. Em 2010 atuou no espetáculo "O Diário de Anne Frank", produzido e estrelado por Milton Gonçalves.

Em 1978, novamente sob as mãos de Maria Jacintha, dirigiu o Teatro Estável de Niterói, uma experiência da Fundação de Atividades Culturais (FAC) de criar uma companhia permanente e oficial. A estreia, no Theatro Municipal da cidade, foi com a peça "Anfitrião 38", de Jean Giraudoux.

Televisão

Isaac Bardavid em "Escrava Isaura"
Em 1959, Bardavid deu seus primeiros passos na televisão. Na TV Continental, fez o teleteatro "Os Três Mosqueteiros", produzido por Moisés Weltman. No mesmo ano, a convite do diretor Maurício Sherman, começou a atuar na TV Tupi. Na emissora, ao lado de atores de referência no país, como Theresa Amayo, Bibi Ferreira e Procópio Ferreira, ficou dois anos e chegou a ocupar o cargo de diretor de Teleteatro. Estreou em novelas em 1960, em "Pé de Vento".

Em 1962, participou do infantil "Pererê", onde interpretava a Onça Galileu. Ele e a companhia, da qual também fazia parte Zilka Salaberry, foram convidados para se apresentarem na Tupi. A apresentação valeu um convite para atuar em programas como "Câmera Um" e o humorístico "Turma do Ri-Ri-Ri", ao lado de Dorinha Duval.

Em seguida, foi para a TV Rio, onde atuou em programas humorísticos como "Noites Cariocas" e "Podres de Chique", além da novela "O Porto dos Sete Destinos" (1965), de Luís de Oliveira. Junto com muitos outros profissionais, saiu da empresa em função de uma crise financeira e foi contratado pela TV Excelsior, onde também permaneceu por pouco tempo.

Início na Globo

Bardavid em Fogo sobre Terra, 1974. Acervo/Globo
"O Rei dos Ciganos" (1966), novela de Weltman, com direção Ziembinski, marcou o início de uma trajetória que levaria o ator a participar de mais de 30 atrações na Rede Globo – e ter as mais variadas experiências. Atuou na novela "Irmãos Coragem" (1970), "Selva de Pedra" (1972), "Fogo Sobre Terra" (1974), "O Feijão e o Sonho" (1976), "Locomotivas" (1977), "O Astro" (1977), "Eu Prometo" (1983); "A Viagem" (1994), "O Cravo e a Rosa" (2000), "A Padroeira" (2001), "Chocolate com Pimenta" (2003) e "Dois Irmãos" (2017).

Em "Salve Jorge" (2012), de Gloria Perez, pôde relembrar suas raízes no papel de Tartan, dono de um restaurante e turco como seus pais; e em "Totalmente demais" (2015), de Paulo Halm e Rosane Svartman, quando viveu o árabe Ibrahim Alfaray, que arremata a personagem de Glória Menezes em um jogo de pôquer. Mas foi em "Escrava Isaura" (1976), de Gilberto Braga, que Bardavid recebeu o maior reconhecimento de público, como Francisco, capataz que fazia grandes maldades a mando do patrão Leôncio (Rubens de Falco), inclusive chicotear escravos.

Na emissora, também trabalhou em minisséries e programas como "Os Trapalhões" e "Chico Anísio Show". Entre 2006 e 2007, interpretou o turco Elias em "Sítio do Pica Pau Amarelo".

Manchete e Record

Na telenovela “Rei Davi” da Record TV como Samuel
Isaac Bardavid teve papeis importantes na Manchete e na Record. Como um dos protagonistas de "Ilha das Bruxas" (1991), minissérie de Paulo Figueiredo, era o Dr. Benzedor, um curandeiro. Atuou ainda nas novelas "Dona Beija" (1986), de Wilson Aguiar Filho, "Tudo ou Nada" (1986), de José Antônio de Souza, "Tocaia Grande" (1995), de Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini, e na minissérie "O Fantasma da Ópera" (1991), de Paulo Afonso de Lima e Jael Coaracy. Na Record, na minissérie "Rei Davi" (2012), de Vivian de Oliveira, representou o profeta Samuel, um papel de destaque na história, e esteve também no elenco de "Milagre de Jesus", outra minissérie, exibida em 2014 e 2015.

Dublagem

Conhecido por sua voz marcante, Bardavid foi um pioneiro na dublagem brasileira e chegou a ser considerado, nos anos 1970, como melhor dublador do Brasil. Seu nome será para sempre associado a Wolverine, Tigrão e Esqueleto, alguns dos mais famosos entre os personagens dos incontáveis desenhos e filmes que dublou. Também foi um dos responsáveis, nos anos 1960, pela regulamentação da profissão.

Isaac Bardavid e Hugh Jackman
Isaac iniciou sua carreira de dublador ainda no final da década de 1950, ao mesmo tempo em que começava na televisão. A convite do colega Alberto Pérez, visitou um dos estúdios de dublagem no Rio, o Cine Castro, e fez sua primeira dublagem vivendo o filho mais velho de Charlie Chan.

De Adam, filho mais velho da saga "Bonanza", série exibida nos anos 1970 pela TV Tupi, a Wolverine, herói de quadrinhos e dos filmes "X-Men", Bardavid dublou centenas de personagens que ficaram na memória de crianças e adultos, como o Esqueleto, de "He-Man"; Odin, pai de Thor; Gibbs, o imediato de Jack Sparrow em "Piratas do Caribe"; Tigrão, da turma do "Ursinho Pooh"; e o Tio Fester, da "Família Addams". Em 2017 dublou o longa de animação "Historietas Assombradas: O Filme" (2017), fazendo a voz do diabo e esteve na série "Dois Irmãos" (2017).

Mesmo tendo dublado atores consagrados como Ben Kingsley, Michael Caine, Laurence Olivier e Marlon Brando, para Bardavid, dublar personagens de desenhos torna o dublador mais conhecido e rende mais trabalhos. "As pessoas me reconhecem pela voz do Esqueleto do He-Man, até hoje. Os desenhos marcam mais que os filmes. Um longa-metragem é normalmente uma obra só, já a desenho não", contava o ator. Bardavid foi também diretor de dublagem por mais de 40 anos.

O respeito pela excelência do trabalho de Isaac Bardavid foi demonstrado, em 2017, pelo ator Hugh Jackman, o Wolverine. No Brasil para divulgar um filme, encontrou-se em um programa de TV com o dublador de seu personagem e o reverenciou publicamente.

Cinema




No cinema, o ator atuou em uma dúzia de filmes, o primeiro deles "A Virgem Prometida" (1968), de Iberê Cavalcanti, ao lado de Juca Chaves e Jofre Soares. Přimeiro filme de longa metragem quase inteiramente rodado em Niterói, teve externas filmadas na Praia de Icaraí, Campo de São Bento, Saco de São Francisco e Jurujuba. Para Bardavid, o longa foi, antes de mais nada, um espetáculo cinematográfico destinado ao grande publico. É uma incursão atrevida no âmbito da moral decadente, uma desmistificação dos esquemas da hipocrisia moralista que sufoca a mulher brasileira. Para o moralista é um filme imoral; para o imoral é um filme moralista. Para ambos, no entanto, é um espetáculo delicioso".

Em "Um Sonho de Vampiros" (1969), também de Iberê Cavalcanti, fazia um general que era vampiro, motivo para a censura completa da obra nos anos de chumbo. Voltou ao cinema em 1983 em "Os Campeões", de Carlos Coimbra.

Sempre atento à cena cultural de Niterói, Bardavid, em 1987, foi a estrela de "É Tempo de Niterói", de Mariangela Rossetti, primeiro filme produzido pelo Centro de Produção de Imagem (CPI), da Funiarte (sucessora da FAC e hoje FAN - Fundação de Arte de Niterói). O filme conta a história da cidade por meio do personagem de um homem simples, que no Centro da Cidade, num dia qualquer da semana, chega ao Jardim São João e atrai a multidão com um discurso evocando personagens históricos e fatos que marcaram a vida de Niterói. O CPI foi uma iniciativa do então presidente Odilon Romêo.

Em 2003 ele atou em "My Father - Rua Alguém 5555" (2003), uma produção norte americana filmada no Brasil. O filme mostra a vida de Joseph Menguele (interpretado por Charlton Heston) - o médico de Hitler, no Brasil. Isaac interpretava um judeu que protestava contra Menguele. Outros atores brasileiros, de origem judaica, como Ida Gomes, também participaram do filme.

Atuou em "O Escaravelho do Diabo" (2016), baseado em um livro da Coleção Vagalume e seu último trabalho no cinema foi no filme "Carcereiros, O Filme" (2019) - também participou de um episódio da série derivada do filme, em 2021.

Literatura

Isaac Bardavid aventurou-se também na literatura: publicou um livro de poesias, "Versos Adversos" (2016).

Homenagens

Em 1986, em cerimônia realizada no Theatro Municipal de Niterói, Isaac recebeu, da prefeitura de Niterói, um prêmio - Uma estatueta de Arariboia - oferecido a artistas nascidos em Niterói que se destacaram no cenário nacional e internacional. Em 2004, ganhou o Prêmio Yamato como melhor dublador de ator coadjuvante por Esqueleto, da série "He-Man" e "Os Mestres do Universo" (2002-04). Isaac Bardavid morreu, aos 90 anos, no dia 1º de fevereiro de 2022, devido a problemas respiratórios.





Publicado em 08/02/2022
O valioso acervo da Biblioteca Oliveira Viana Leia mais ...
Museu Antônio Parreiras