"Alto, voz grave, eufônica. Poeta-poeta". Assim era definido o perfil do poeta capixaba que adotou, em 1960, Niterói para viver e militar pela cultura, sua grande paixão. Participando ativamente dos movimentos de poesia alternativa desde os anos 1970, Cesar Ferraz de Araújo foi por isso perseguido na época da ditadura militar.

Nascido em Vitória, no dia 10 de setembro de 1943, passou parte da infância no Amazonas, junto aos igarapés, experiência que lhe proporcionou uma vivência ecológica intensa, que procurou difundir, também, por meio de seu trabalho.

Foi soldado e cabo na Fortaleza de Santa Cruz, formou-se em contabilidade e em Direito. Trabalhou como ator, radialista, jornalista, vendedor de livros e construtor de casas, que, aliás, foi uma grande paixão, comparada por ele, ao ato de escrever. "Tijolos e palavras para mim têm o mesmo peso, ambos constroem".

Desde muito cedo se ligou a movimentos literários, grupos de dança, música, teatro e artes plásticas. Para César, a cultura estava em seu sangue. "Sou poeta, mas não sei explicar se tenho um estilo definido. Acho que tenho uma tendência genética para a poesia, uma vez que meus ascendentes paternos eram poetas".



Conhecido, também, por sua arte de interpretar poesias, César influenciou uma geração de escritores e artistas. Como estudante de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi atuante na luta contra a ditadura usando a poesia como arma de protesto, sendo conhecido como o "Poeta Universitário do Brasil", após publicação dos poemas "Canto de Morte" e "Enterro do Menino de Belém", pelo jornal 'A Tribuna da Imprensa', em homenagem a Edson Luiz, estudante morto pela polícia em 1968.

Escolhido para representar o Estado do Rio de Janeiro no I° Encontro Nacional de Poetas, em Fortaleza, foi preso ao ler seu poema "Da Liberdade", que havia sido premiado no I° Festival de Poesia Falada em Niterói. Na época, toda a edição do livro foi queimada. Apesar da perseguição sofrida, a anistia só lhe foi concedida após sua morte em 2006, aos 62 anos. César deixou esposa e três filhos.

Como poeta teve 12 obras publicadas, organizou duas antologias, além de ter participado de vários movimentos culturais e recebeu o Título de Cidadão Niteroiense, conferido pela Câmara Municipal.

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Como administrador, dirigiu a Casa de Cultura Euclides da Cunha, em Cantagalo, sendo obrigado a abandonar o trabalho devido à perseguição política; foi Diretor Cultural da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); e do Centro Orcal de Cultura e Arte.

Em Niterói, dirigiu, a partir de 1989, o Centro Cultural Norival de Freitas, espaço vinculado à Fundação Niteroiense de Arte (Funiarte), hoje FAN. O Centro Cultural funcionava num sobrado no Centro da cidade, mas era ativo apenas no andar inferior, pois o restante foi todo destruído por um incêndio cinco anos antes. Na ocasião, dizia que "sonhava transbordantemente, mas realizava dentro das possibilidades".

Como gestor, buscava a descentralização da produção cultural. Sonhava espalhar espaços pelos bairros, nas associações de moradores e sindicatos. "Devemos dar oportunidade as pessoas para terem um espaço onde possam mostrar seu talento. Eu tenho interesse em atuar e apoiar os movimentos culturais de outras entidades", dizia com entusiasmo.

Nacionalista, era veemente quando falava da valorização dos aspectos culturais do País. "Não gosto de expressões como "marketing" e "freelance", por exemplo. Devemos combater o estrangeirismo. Os franceses combateram radicalmente a invasão americanista e conseguiram enriquecer sua língua. No Brasil, para modernizarmos a língua portuguesa, teríamos que voltar 300 anos para buscar o Português arcaico e inverter esse processo", afirmava.

Em sua homenagem, em 2014 a poeta e atriz Eda Damásio lançou no saguão da Câmara de Vereadores de Niterói, o livro, editado pela Nitpress, "César de Araújo – Memórias e Poemas".


Obra poética:

Através da Consciência - Edição do autor (mimeografada) - Rio de Janeiro (1963); Das Faces - Ed. Encontro - Rio de Janeiro (1967); Canto de Morte e Enterro do Menino de Belém - Coordenada Editora de Brasília (1968); Antologia Poética do Grupo Salina - Ed. Reportagem - Niterói, (1969); O Jardineiro e a Pedra - Ed. Livros de Portugal - Rio de Janeiro, (1970); O Herdeiro do Homem - Ed. A Casa da Filosofia & Diretório Central dos Estudantes, UFF - Niterói, (1971); Pequena Antologia Poética - Centro Orcal de Cultura e Arte - Niterói, (1973); Eu (Im)Pessoal- Edição do autor - Chancela: Gutemberg Card - Niterói, (1990); Fala, Poesia Brasileira & Colheita - Obra bi-intitulada, gravada em fitas cassete: primeira antologia nacional do autor - Chancela: Secretaria de Cultura de Niterói, Fundação Niteroiense de Arte e Gutenberg Card - Niterói, (1991/1993).





Com informações de Jornal Casa da Gente (14/09/2004) e O Fluminense (11/02/1990 e 07/12/2006).








Publicado em 05/11/2021
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