Márcia Haydée Salavarry Pereira da Silva nasceu em Niterói, em 18 de abril de 1937 e sempre teve um único interesse: o balé e os espetáculos.

Filha do médico Alcides Pereira da Silva e de Margarita Haydée Salaberry Lopes, começou a despertar a paixão pela dança muito cedo. Aos três anos de idade, já ensaiava seus primeiros passos; com seis, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro e começou sua formação artística com Yuco Lindberg e Vaslav Vetchek., mestre que traçou sua carreira, ensinando-a intensivamente durante oito anos consecutivos.

Em 1953, conquistou o 1.° lugar no concurso instituído para ingresso na Escola de Bailados do Teatro Municipal onde estudou mais dois anos com Tatiana Leskova, antes de embarcar para Londres em 1955. Na Inglaterra, ingressou na Royal Ballet School onde teve, também, grandes professores como miss Edwards, Harold Turns e Pamela May, que lhe abriu os olhos para inúmeros detalhes sobre a anatomia do corpo e função dos músculos.

Findo seu aprendizado em Londres, lhe ofereceram uma recomendação para o balé do Marquês de Cuevas, que na ocasião estava excursionando pela América do Sul. Um dos coreógrafos, Nicolas Beriosov, pai de uma das primeiras bailarinas da Royal Ballet School, lhe deu uma carta de recomendação dizendo: "Nós temos uma menininha de muito talento que vai agora ao Brasil e depois irá a Buenos Aires para fazer uma audição para o Marquês". Ingressou na Companhia em 1957, permanecendo por quatro anos. "Nos quatro anos que passei nessa Companhia aprendi o que é ser bailarina, aprendi minha profissão", afirmou Haydeé. Além disso, o Marquês era um homem fantástico, sua paixão era a dança, ele fazia tudo pela companha. Por isso, todo o elenco tinha por ele um enorme carinho. Era um homem muito especial."

Em 1961, o coreógrafo John Cranko, recentemente nomeado diretor do Ballet de Stuttgart da Alemanha, contratou Haydée como 1ª solista. Haydeé destaca seu encontro com Cranko, coreógrafo inovador que a convidou para ser a primeira bailarina, a despeito da desconfiança de outros, e firmou uma parceria frutífera que trouxe um prestígio inigualável para o Stuttgart Ballet. Cranko inspirou-se nela para coreografar grandes obras como 'Romeu e Julieta', 'Eugène Oneguin' e 'A Megera Domada'. "Tudo o que sou hoje, devo a Cranko. Ele era um coreógrafo que tinha uma visão muito a f4rente de sua época e viu em mim a capacidade de poder fazer tudo o que ele queria. A Cranko devo minha carreira", afirmou Haydeé.

A partir daí muitos outros coreógrafos criaram para ela obras que figuram atualmente no repertório de um grande número de companhias. Nos 13 anos como solista do ballet de Stuttgart, foi convidada a se apresentar em todos os principais centros de dança, de New York a Moscou, de Londres a Paris, também se apresentando no Brasil.

Em 1976, três anos após a morte de Cranko, Márcia assumiu a direção do Ballet de Stuttgart, passando a ser disputada por outros coreógrafos, tais como Maurice Béjart, Glen Tetley, Jiri Kylian, William Forsythe e John Neumeier. Ela era então aclamada como a "Maria Callas da dança". Permaneceu no cargo por 20 anos.

Convidada a atuar por quase todas as grandes companhias do mundo, entre seus “partners” se encontram os mais importantes bailarinos do mundo, entre eles Mikhail Baryshnikov, Rudolf Nureyev, Paolo Bertoluzzi, Anthony Dowel, Jorge Donn e Richard Cragum, com quem foi casada por 16 anos. Em 1993, Márcia Haydée assumiu também a direção do Companhia Nacional de Dança do Chile.

Dedicado a Márcia Haydée, John Neumeier fez o filme 'Dama das Camélias', onde Márcia desempenhou o papel principal. Ela recebeu numerosas homenagens, como a da Universidade de Stuttgart, que lhe conferiu o título de Doutor “Honoris Causa” e do Presidente do Conselho de Ministros do Bade Wurtemberg, que a nomeou professora.

Em 1996, Márcia Haydée resolveu dedicar-se à vida pessoal e passou a viver com seu segundo marido, o professor de ioga Günther Schoeberl, em uma casa de campo, a quarenta quilômetros de Stuttgart. Contudo, em outubro de 1999, aos sessenta e dois anos, ela voltou a apresentar-se, dançando a peça Tristão e Isolda, com o bailarino brasileiro Ismael Ivo, na Alemanha.





Uma jovem niteroiense ganha o mundo
(Revista Guanabara Fluminense, 1954)

Uma figurinha esbelta, em quem, a graça e a beleza se harmonizam em síntese perfeita: eis como se identifica inicialmente a niteroiense que rapidamente conquistou fama universal se apresentando como estrela do corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e se chama Marcia Haydée.

Revista Guanabara Fluminense, 1954
Com apenas 16 anos de idade, a jovem bailarina fluminense é atualmente o maior sucesso em arte coreográfica, arrebatando aplausos de todas as plateias às quais se exibe e, sendo a todo instante tentada por convites a grandes excursões internacionais.

Sobre sua rápida carreira e seu ingresso no ballet, muitos detalhes poderiam ser citados, porém, enumeramos os mais importantes, dizendo aos nossos leitores que Marcia Haydée, filha do dr. Alcides Pereira da Silva, é niteroiense legítima, nascida em 18 de abril de 1937.

Seus estudos foram iniciados em 1946, sob a orientação do professor Vaslav Vetchek., conseguindo desde então, atrair a atenção de todos, sendo por isso incentivada e, sete anos mais tarde, ou seja, em 1953, conseguindo o 1.° lugar no concurso instituído para ingresso na Escola de Bailados do Teatro Municipal. Sob todos os aspectos, 1953 foi o ano que consagrou Marcia Haydée.

Nesse ano de 1954, inúmeras foram as provas pelas quais conseguiu passar com brilhantismo. No concurso instituído para classificação do corpo de bailados a se exibir nos festejos comemorativos do IV Centenário de São Paulo, obteve a jovem Marcia Haydée mais um grande sucesso, de vez que conquistou o 1.° lugar como solista, só não o exercendo face a decisão do professor Veltcheck em não permanecer naquela cidade, por questões contratuais.

Consagrada plenamente, essa jovem orgulho do ballet nacional vem subindo rapidamente, daí merecer o título de "revelação do ano". Em Niterói, juntamente com Yllé Bittencourt, para o Centro de Cultura Artística, dançou a "Composição Abstrata", criada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e que foi considerada por nossa plateia como um espetáculo verdadeiramente maravilhoso.

Marcia Haydée, cuja estrada brilhante no cenário coreográfico foi descrita nestas poucas palavras, teve sua consagração também, em Montevidéu, onde com grande sucesso se apresentou no Teatro Sodré, aí mais uma vez, arrebatando entusiásticos aplausos que se transferem ao ballet nacional.





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Museu Antônio Parreiras