Aos 69 anos morre o contrabaixista que fez história no Bossa Três e tocou com Tom Jobim até o fim da vida do maestro

Um dos grandes músicos da bossa nova, o baixista Sebastião Neto, o Tião Neto, morreu ontem, 14 de junho de 2001, de câncer na bexiga, aos 69 anos de idade, no Hospital Santa Cruz, em Niterói, onde estava internado há 15 dias.

Integrante das bandas de Sérgio Mendes e de Tom Jobim, ele fundou o grupo "Bossa Três" com o pianista Luiz Carlos Vinhas e o falecido baterista Edson Machado. Tião foi enterrado ontem à tarde no Cemitério Charitas, em Niterói. Seu último trabalho foi o disco Wanda Sá & Bossa Três, gravado para o Japão e lançado no Brasil ano passado.

Os amigos ficaram abalados com a morte do músico. "Ele estava animado com os shows que faríamos no Japão, só falava nisso", conta Wanda Sá. "Como contrabaixista, foi uma revelação, tocava diferente de todo mundo.

Vinhas, que conhecia Tião desde 1958 e gravou com ele no disco de Wanda, lamentou mais essa perda para a bossa nova: "Lá em cima deve ter agora uma senhora duma orquestra. A cantora Leny Andrade, de quem Tião foi baixista no Beco das Garrafas também lamentou. "Ele era idolatrado pelo Tom e pelo Sergio Mendes. Tião foi só eficiência e amor", disse a cantora.

Carioca, mas niteroiense por adoção, Tião Neto gravou em 1992, o disco Carrousel pelo selo Niterói Discos.


Abordagem concisa do instrumento

Por Tarik de Souza

Por natureza do posto de alicerce instrumental dos grupos e orquestras, quase todo contrabaixista tem um perfil discreto e, com exceções de alguns solistas do jazz, como Charles Mingus, e do rock, como Paul McCartney, pouco aparece na mídia. Dentro da regra, Sebastião Costa Carvalho Neto, o carioca Tião Neto, que faria 70 anos em novembro, passou meio batido para os desatentos a despeito do currículo de pilar da bossa nova.

Integrou o conjunto do pianista Sérgio Mendes, inclusive na obra-prima "Você ainda não ouviu nada", a bordo do Sexteto Bossa Rio, em 1964. Uniu-se ao piano de Luís Carlos Vinhas e à bateria de Edison Machado no igualmente antológico "Bossa Três" também nos 60, e ainda tocou na Banda Nova, de Tom Jobim a partir de 1984 até a morte do maestro.

Esse ex-radionavegador da extinta Aerovias Brasil, ex-comerciande de móveis e ex-radiotelegrafista começou na música aos sete anos, ao ganhar um concurso na rádio Sociedade da Bahia, batendo pandeiro. Interessado na linha melódica do baixo que costumava cantarolar, estudou o instrumento com Vidal, do grupo de Radamés Gnattali, e depois de muitos bailes no "Icaraí Boys", no final dos 50, debutava nas jam sessions do Clube Central, também em Niterói, onde tocou pela primeira vez com Sérgio Mendes. A travessia para o Bottle's no Beco das Garrafas, em Copacabana, foi um pulo.

Nos EUA Inicialmente, num Hot Trio com o mesmo Sérgio no piano e Vitor Manga na bateria. E logo seu rosto sisudo sublinhado pelo cavanhaque estaria na capa de "Os Bossa Três" de 1965, na primeira formação do grupo com Edison e Vinhas. Eles gravariam três discos, iriam ao Ed Sullivan show, o programa de maior audiência nos EUA, e teriam um revival em 1999 (com Ronnie Mesquita, da segunda formação, na bateria). Ainda em 1965, Tião embarcou com Sérgio Mendes, Wanda Sá e a violonista Rosinha de Valença para uma turnê americana que acabou resultando na formação do grupo "Brasil 66". A explosão de vendas nos EUA do LP com a versão de Sérgio Mendes para "Fool on the hill", em 1968, disputou com os Beatles os primeiros postos da parada ianque.

Ao lado de Sérgio e Tião a banda contava com Dom Um Romão (bateria), Rubens Bassini (percussão) e as cantoras/out doors Lany Hall e Karen Philipp. O baixista morou 12 anos nos EUA, participou do célebre disco Getz/Gilberto junto com João e Astrud Gilberto, Stan Getz e Jobim, e ainda trabalhou com os locais Herbie Mann, Shorty Rogers, Les Baxter e Vince Guaraldi, além dos exportados João Donato e Bola Sete. De volta ao Brasil, em 1975 tornou-se produtor de jingles com os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle antes de receber convite para engajar-se na Banda Nova de Jobim (ao lado de Paulo Jobim, Jaquinho Morelenbaum e Danilo Caymmi).

Autodidata que se tornou virtuose com um ataque sempre conciso e essencial no instrumento. Tião Neto gravou um disco solo no selo Niterói Discos (do governo niteroiense), "Carrousel", em 1993, onde exibe sua faceta autoral. Também revelou-se conferencista na série "Todas as notas do Jazz", ministrada no Museu do Ingá, em Niterói, e no CCBB, desvelando as várias fases do gênero que o transportou da aviação comercial para a música.





Publicado em 12/05/2021
Museu Antônio Parreiras