Um capixaba amante de Niterói. Assim se define o poeta César de Araújo, 46 anos, casado, pai de três filhos, e acima de tudo um admirador e incentivador da cidade, em todos os seus aspectos. Um homem cuja vida se confunde com a cultura, tendo dedicado grande parte a ela.

César tem um currículo extenso. Já trabalhou como ator, radialista, jornalista, vendedor de livros e construtor de casas, que, aliás, é uma grande paixão, comparada por ele, ao ato de escrever. "Tijolos e palavras para mim têm o mesmo peso, ambos constroem", disse.

Embora tenha se formado em advocacia, nunca a exerceu. Há um ano, , assumiu em março de 1989, César dirige a Casa de Cultura Norival de Freitas, no Centro, na qual pretende transformá-la numa central ampla de cultura. Construir é uma palavra chave em todas as realizações do poeta. Ele sente um grande prazer em recordar o que já fez na vida. A infância no Amazonas, junto aos igarapés, lhe deu uma vivência ecológica intensa, que hoje procura difundir, também, através de seu trabalho.

Desde muito cedo ligou-se a movimentos literários, grupos de dança, música, teatro e artes plásticas. Para César, a cultura está no sangue. "Sou poeta, mas não sei explicar se tenho um estilo definido. Acho que tenho uma tendência genética para a poesia, uma vez que meus ascendentes paternos eram poetas. Meu tio Caio Soter de Araújo, por exemplo, foi um poeta moderníssimo, mesmo antes de 1922", explicou, referindo-se ao Movimento Modernista, do qual participou Oswald de Andrade, entre outros.

Atualmente, além de estar preparando o livro de poesias "Eu (in) pessoal", que deverá ser lançado ainda este ano, César se dedica inteiramente ao trabalho à frente da Casa de Cultura Norival de Freitas. O Centro Cultural abre espaço para exposições de artes plásticas, além de incentivar o teatro, a música, realizar palestras e promover lançamento de livros. A casa é órgão integrante da Fundação Niteroiense de Arte (Funiarte). César informou que nesse primeiro ano de trabalho "sonhou transbordantemente, mas realizou dentro das possibilidades".

Atividades da Casa

Fizemos dez exposições individuais com artistas plásticos, apoiamos grupos de teatro e música e organizamos conferências. Mas queremos muito mais - disse. Para realizar todos esses eventos, a casa contou com a ajuda da iniciativa privada, pois, segundo ele, o orçamento destinado a investimentos na área de cultura em Niterói é muito pequeno. "Tivemos o apoio de 15 empresas. Para nós, não importa o tipo de atividade delas, o que vale é que todas essas forças são importantes para a cultura. Este ano, a Funiarte terá um orçamento próprio para o setor cultural, mas continuaremos aceitando os recursos das empresas", ressaltou.

O maior desafio para ele é a reconstrução da casa. O Centro Cultural funciona no andar inferior, pois o restante foi todo destruído por um incêndio em 1984. "A Prefeitura tem o máximo interesse na reconstrução da casa, o que deverá acontecer em setembro ou outubro, porque queremos implantar também um centro de estudos e pesquisas", revelou.

Entre os projetos para a casa, está a construção, em seus jardins, de um palco móvel para apresentações de grupos de teatro, música e corais. Nos planos há também a criação do coral infanto-juvenil Praia Grande, com a participação de crianças entre 8 e 16 anos. A Casa de Cultura abrigará todo o trabalho do coral, tendo à frente o maestro niteroiense Silas Sias. Seu objetivo é dar recitais em escolas públicas e nas praças da cidade.

Com a reconstrução, César pretende ocupar os espaços, então ociosos, organizando uma videoteca cultural brasileira, constituída de vídeos e filmes de produção nacional. "As locadoras de vídeo contam com um acervo de produções estrangeiras, ou seja, o lixo americano. É importante que o cinema brasileiro seja preservado e exaltado. Temos grandes gênios como Oscarito, Mazaroppi e Wilson Grey, cujos trabalhos caíram no esquecimento.

Outra sala da casa abrigará uma exposição permanente de fotografias antigas e históricas de Niterói. "Queremos transformar a casa numa Central de Cultura, dinâmica, com um bom acervo destinado a estudos e pesquisas", continuou. César de Araújo é veemente quando fala da valorização dos aspectos culturais do País. "Não gosto de expressões como "marketing" e "freelancer", por exemplo. Devemos combater o estrangeirismo. Os franceses combateram radicalmente a invasão americanista e conseguiram enriquecer sua língua. No Brasil, para modernizarmos a língua portuguesa, teríamos que voltar 300 anos para buscar o Português arcaico e inverter esse processo", afirmou.

O poeta considera a cidade como um dos lugares mais avançados do País, em termos de cultura. "Proporcionalmente ao pequeno território e sua população, o niteroiense é o povo que mais lê no País. Temos um grande número de livrarias, grandes pintores e escritores de peso nacional. Há também atores, pessoas ligadas à música e à dança, sem esquecer dos poetas. A cidade fervilha de grandes talentos, orgulhos da cultura brasileira", exclamou.

César cita como principal qualidade do povo niteroiense a tranquilidade, ou seja, não é um povo escandaloso, vedete, diz. Ele acredita que a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro, apaga o brilho da população, que mesmo assim, deve se orgulhar, pois segundo ele, é a cidade mais gostosa para se viver. "Tanto assim, que os cariocas invadiram nossas praias. Se tivéssemos um canal de televisão voltado especificamente para a cultura de Niterói, realmente mostraríamos nosso potencial", acrescentou César.

Como a Casa de Cultura Norival de Freitas será um centro irradiador de cultura, César pretende fazê-la andar pela cidade. "A grande massa não tem acesso aos espaços culturais. As exposições deveriam andar, através de painéis, nas ruas e praças. Os lançamentos de livros deveriam ser feitos em praça pública, só assim a cultura atingiria o maior número de pessoas", imagina.

César comentou também a necessidade de descentralização da produção cultural, espalhando espaços nos bairros populosos, associações de moradores e sindicatos. "Devemos dar oportunidade as pessoas para terem um espaço onde possam mostrar seu talento. Eu tenho interesse em atuar e apoiar os movimentos culturais de outras entidades, pois acho fundamental sempre estarmos abertos a novas experiências", concluiu.

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Publicado originalmente em O Fluminense, em 12 de fevereiro de 1990.





Publicado em 05/11/2021