(Memória, 11 de fevereiro de 1985)

O visitante se surpreende com a grande quantidade de verde. Um novo éden sem a presença da serpente.

Um paraíso no meio da cidade. Pomar, cultivo de orquídeas, árvores seculares, diversas espécies de pássaros, móveis do século passado. São oito mil metros quadrados de muito verde cercando uma casa que ocupa cerca de três mil metros, com fachada de pedras portuguesas e azulejos desenhados à mão.

É o Solar do Jambeiro, já chamado de Palacete Bartholdy, na Rua Presidente Domiciano, 195, cuja grade verde chama a atenção de todos que tentam, através das árvores, desfrutar pouco da paz local. Seus proprietários, Lúcia e Egon Falkenberg, pensam em transformar seu paraíso em um museu ou Centro Cultural, em benefício da comunidade.

Em seus dois andares, 20 cômodos - sem contar o aposento dos empregados com seis quartos - o Solar do Jambeiro traz parte da História do Brasil e, particularmente, da história de Niterói. Tanto que foi tombado, há 10 anos, pelo Patrimônio Histórico Nacional.

Sua construção foi iniciada em 1872 por um português que veio para o Brasil acompanhado da esposa e, como grande parte dos estrangeiros que vinham para cá, decidiu fixar residência em Niterói, onde a vida era mais saudável que no Rio, na época. Ficando viúvo, o português retornou à Santa Terrinha voltando algum tempo depois com outra esposa. Novamente não deu sorte e ficando viúvo pela segunda vez, decidiu vender a chácara.

George Bartholdy, Cônsul-Geral da Dinamarca no Brasil, adquiriu a propriedade em 1878, terminando, a seguir, sua construção. Batholdy, casado com Olga Celina, modificou alguns detalhes na estrutura da casa, em cujos jardins circulavam charretes e cavalos (no interior existiam duas cocheiras). George e Olga tiveram quatro filhos. Com a morte do casal, um dos filhos, Vera Bartholdy Gad, adquiriu a parte dos outros irmãos, preocupada em conservar o patrimônio, e mudou-se de São Paulo para o Solar. Com sua morte, em 1925, o Solar dos Jambeiros passou para o filho, Egon Falkenberg, casado com Lúcia Piza Figueira de Mello Falkenberg, atuais proprietários da antiga chácara.

Mas nem sempre o Solar fol habitado por famílias. Em 1903, sediou o Clube Internacional e de 1911 a 1915, o Convento das Irmãs Dorotéias. Durante estes períodos, a família Bartholdy se encontrava na Europa.

Passando o portão verde que dá acesso ao Solar, o visitante se surpreende com a grande quantidade de verde, incomum nos bairros mais urbanizados de Niterói, como o Ingá. Presos em gaiolas, 30 a 40 pássaros de várias espécies como araponga, gavião, graúna, galo da serra, periquito canadense, biquinho de lacre, sanhaço são os únicos que não desfrutam da liberdade local.

Estátuas antigas e um banco feito com ladrilhos portugueses dão exata noção da antiguidade da chácara. Banco igual a este só existe na Floresta da Tijuca, no Rio. Muito bem cuidado, com a grama aparada e varrido, com perfeição, o jardim possui árvores em quantidade dando frutos como abiu, jaca, fruta-pão, carambola, manga, maracujá. jabuticaba e jambo (esta última fruta deu o nome ao local, Solar do Jambeiro).

A única modificação feita na casa foi a construção de uma piscina, em 1981. Lúcia Falkenberg, no entanto, conservou até na piscina o ar antigo da casa procurando para seu interior ladrilhos parecidos com os da fachada da casa. Seus proprietários cultivam, além de frutos, flores como a dama da noite, que dá apenas uma vez por ano, e orquídeas.

No interior do Solar, a sensação que se tem é que se está entrando em uma das antigas fazendas brasileiras e que de algum lugar vai surgir a Sinhá Moça com seu vestido armado e as mucamas fiéis. Em cada ponto da casa está presente o cuidado de seus proprietários e o trabalho dos seis empregados fixos (A família contrata mais alguns quando resolve festejar alguma data ou quando recebe visitas).

Entre os móveis, se encontram verdadeiras relíquias. Peças que não são encontradas nem mesmo em lojas de antiguidades. Muitas são europeias. Mesas holandesas, lustres franceses, quadros dinamarqueses, camas do século passado. O tanque e a caixa d'água são de pedra, como os existentes na Casa de Rui Barbosa, no Rio. O oratório não poderia faltar e é de origem baiana, frente ao qual foram celebrados diversos casamentos e novenas.

No Salão Rosa, o teto traz as quatro estações do ano: uma em cada canto.

Até mesmo os fogões são antigos e os tachos de cobre para fazer doces foram conservados. No banheiro, pia inglesa totalmente decorada com flores. Relógios de parede, candelabros, estantes embutidas, tapetes, pias embutidas feitas de porcelana (lavabos), lustres e retratos de antepassados formam com as tábuas corridas a decoração do Solar. Próximo à cozinha, um pilão e um ferro à brasa completam o ambiente.

Em 1983, o casal chegou a tentar vender o casarão.
Na sala de jantar, o teto todo trabalhado chama a atenção. Nos quatro cantos a representação da cozinha brasileira como o café da manhã, frutas, verduras e refeições. No salão rosa, o teto traz as quatro estações do ano. Uma em cada canto: verão, outono, inverno e primavera. E um dos mais bonitos existentes em casas particulares e está discriminado pelo Patrimônio Histórico.

Na escada de subida para o segundo andar da casa, onde ficam os quartos, a parede é enfeitada com imitação de mármore, feita pelos portugueses semelhante à existente na Casa de Rui Barbosa, no Rio. A porta é de madeira trabalhada, formando flores. Cômodas e criados mudos (antigos móveis usadas como mesinhas de cabeceira) dão o ar antigo aos quartos, que possuem varandas e camas do século passado.

A segurança do Solar dos Jambeiros é também uma preocupação de seus proprietários que, para garanti-la, utilizam três guardas-noturnos e quatro cachorros policiais que, até hoje, impediram qualquer tentativa de assalto.

O Clube Internacional acolhia a melhor sociedade de estilo

O advogado e auditor aposentado do Tribunal de Contas, Júlio Xavier de Figueiredo, lembra que Lúcia e Egon Falkenberg foram diretores, entre 1958 e 1978, do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá-Bertioga, e recepcionam no Solar, de tempos em tempos, ilustres visitantes, "que ficam deslumbrados com a beleza da decoração antiga. São verdadeiras relíquias". Comentando sobre o valor histórico do Palacete Bartholdy, Júlio de Figueiredo não pode deixar de citar o prédio que está sendo demolido, em frente ao Solar, e que abrigou a Faculdade de Farmácia e Odontologia do Estado do Rio de Janeiro, fundada em 1912.

O pesquisador conta que em 1903, o prédio do Solar do Jambeiro foi ocupado pelo Clube Internacional, "que acolhia a melhor sociedade de então, com bailes e casamentos realizados pelo Juiz de Paz Aguiar, pai de D. Regina Bittencourt. Eram diretores do Clube o capitão de fragata, Estevão Adelino Martins (presidente), Peter Monissy (vice), C. de Miranda Freitas (secretário) e W. Coulson Dixon (tesoureiro)".

De Solange Duarte para O Fluminense


Lustre do primeiro andar






Publicado em 04/95/2021
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