Importantes patrimônios históricos e artísticos da humanidade estariam destruídos se não fosse o habilidoso e paciente trabalho dos restauradores.

Mesmo se ainda pouco difundida, essa profissão vem ganhando destaque em Niterói depois da recuperação do Teatro Municipal João Caetano. À frente da equipe, o também artista plástico Cláudio Valério Teixeira, recentemente premiado com a Medalha Leila Diniz pela sua contribuição à cultura da cidade.

"Estamos formando um núcleo de restauradores em Niterói. Se cada cidade tivesse o seu próprio núcleo, conseguiríamos resgatar os patrimônios de todo o Brasil", analisa Valério. O grupo, coordenado por ele, atualmente trabalha na recuperação do Solar do Jambeiro, construção de estilo português de 1872, e do Palácio Araribóia, antiga sede da Prefeitura datada do início do século.

Segundo Cláudio Valério, antes do trabalho começar é importante saber qual será o uso do imóvel. A vocação do Jambeiro e do Araribóia, por exemplo, já estão decididas. O primeiro vai abrigar um gabinete de representação do prefeito e sediar também as reuniões do Conselho Municipal. Todo o prédio, que terá o térreo aberto ao público, será decorado com móveis do século passado e quadros de paisagistas fluminenses. A recuperação do jardim, incluindo a estufa de orquídeas, seguirá as fotos de época. "O local deverá ser palco de concertos de música de câmara e seminários de arte", antecipa.

Já o Palácio Araribóia continuará sediando a Secretaria Municipal de Finanças. A restauração vai incluir a retirada de divisórias presentes em todo o prédio que impedem de apreciar seu belo interior, incluindo escadarias de mármore e ferro fundido. Também o conforto dos usuários foi priorizado no projeto. "O objetivo é oferecer um serviço de altíssima qualidade, completamente informatizado e com mobiliário moderno", explica.

Cláudio Valério afirma que no Jambeiro, assim como já havia acontecido no Teatro Municipal, decidiram fazer uma restauração crítica. "Quando existe uma boa informação do prédio optamos por voltar ao que era originalmente, seguindo a linha histórica. Já na crítica, mantemos os elementos de qualidade incorporados à construção, preservando sua memória", justifica.

A restauração coordenada por Cláudio Valério tem como principal característica o fato de ser interdisciplinar. "Entre os vários profissionais envolvidos no projeto existe uma engenheira que vem de Portugal recuperar a azulejaria, um engenheiro especializado em cupins e um iluminador", exemplifica. O escritório da equipe funciona no prédio em obra e isso possibilita vivenciar melhor a evolução do trabalho.

Hoje sob a responsabilidade de especialistas, que unem conhecimentos técnicos e artísticos, a restauração durante vários anos foi realizada por pintores e profissionais afins. De acordo com Cláudio Valério, no Brasil existe um mercado em potencial para a área. "Possuímos um dos maiores acervos de documentos do mundo. É verdade que está mal preservado e conservado mas existe". reforça. Niterói não fica atrás e é definida por ele como um celeiro de memória. "Acho muito gratificante trabalhar com o resgate de nossa história", finaliza.

Multifunções

Especialista também em recuperação de quadros, o artista plástico e restaurador Cláudio Valério Teixeira, 48 anos, divide-se em várias funções. Antes de optar por essas áreas de atuação, estudou música e participou de uma banda de jazz, mas acabou vencendo a herança genética. Seu pai, o pintor Oswaldo Teixeira, foi fundador do Museu Nacional de Belas Artes e integrou o primeiro grupo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Já o seu avô, Augusto Amaral, fazia decoração de fotos em Porto (Portugal). Discípulo do restaurador Edson Motta, da Escola de Belas Artes da UFRJ, Cláudio Valério continuou seus estudos nos EUA e acumulou vários trabalhos importantes em seu currículo. Durante quatro anos, coordenou a recuperação dos históricos quadros "A Batalha de Avaí", de Pedro Américo, e a "Batalha de Guararapes", de Victor Meirelles, ambos da acervo do MNBA.

Ele atuou também como consultor da restauração dos prédios do Theatro Municipal do Rio, Biblioteca Nacional e I Tribunal do Júri. Cláudio Valério concilia seus horários entre o atelier de pintura, onde restaura quadros, a presidência da Fundação de Arte de Niterói (FAN) e o trabalho de restaurador de bens imóveis.

Membro da Associação Brasileira e da Internacional de Críticos de Arte, ele ainda encontra tempo para atuar nessa área. O restaurador participa do Conselho Internacional de Museus e frequentemente realiza palestras e conferências. Apesar de tantas atividades, Cláudio Valério não deixa de lado sua atuação como pintor.

Carioca radicado em Niterói há duas décadas, já fez exposições inspiradas em Van Gogh, Picasso e em Nova Iorque. "Estou planejando realizar uma série de retratos, um dos gêneros da pintura quase banido da história da arte", antecipa. Outra temática que atrai a sua atenção é a vida noturna. "Sou notívago por natureza, autodefine-se Cláudio Valério, que não se afasta do estilo realista expressionista. "A arte contemporânea perdeu a referência com a natureza e a sociedade", lamenta.

Por Ana Cristina Hermano, para O Fluminense

Leia também o perfil de Cláudio Valério Teixeira






Publicado em 07/05/2021
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