Do Prefeito de Nictheroy, Dr. João Pereira Ferrás, em Novembro de 1907

De conformidade com a autorização contida na Deliberação n. 55 de 5 de Março de 1906, contratei com o pintor Antonio Parreiras, a execução do retrato de Martim Affonso de Souza, afim de collocalo no Salão Nobre da Camara Municipal desta cidade.

Contratando esse trabalho, não me cingi a mandar tirar uma simples cópia do retrato de Ararigboia, para figurar no salão dessa Camara; tive em vista a execução de um quadro, ganhando em verdade historica o que em semelhança naturalmente perdeu o retrato, pintado ha longo tempo, não se sabe por quem, e se parecido, ou não com o fundador e intrepido defensor da cidade.

Será, pois, um quadro historico, assignalando o ato principal da vida da cidade - a sua fundação - e contendo ao mesmo tempo o retrato do fundador. A homenagem assim é mais significativa, e tem outro valor.

O contrato que celebrei com o eximio pintor brasileiro, Antonio Parreiras, é do teor seguinte:

Termo de contrato que entre si fazem a Prefeitura Municipal de Nitherohy, por seu representante immediato, o Exm. Sr. Prefeito, Dr. João Pereira Ferraz, e o pintor Antonio Parreiras, para a execução de um quadro, referente á individualidade de Martin Affonso de Souza, - o Ararigboia, - de conformidade com a Deliberação n. 55 de 5 de Março de 1906.

Aos vinte e quatro dias do mez de Agosto do anno de mil novecentos e sete, compareceram nesta repartição o Exm. Sr. Dr. João Pereira Ferraz, Prefeito Municipal, e o pintor Antonio Parreiras, e declaram que haviam entre si contratado a execução do quadro acima descripto, sob as seguintes condições:

Primeira. O pintor brasileiro Antonio Parreiras se obriga a pintar para a Prefeitura Municipal de Nitherohy um quadro a óleo que terá como titulo: - Martin Affonso de Souza, o Ararigboia e sub-titulo: - Fundação da cidade de Nitherohy.

Segunda. A téla medirá 2m,50 por 3m,50; e a moldura, com 0m,35 de largura, será bronzeada e dourada.

Terceira. Entrará na composição do quadro, como figura principal, em tamanho natural, Martin Affonso de Souza. Além dessa figura entrarão tantas outras quantas forem necessarias, para que o quadro em seu conjunto, além de possuir o retrato de Martin Affonso de Souza, o Ararigboia, que será modelado pelo existente na Bibliotheca Nacional, synthetize a fundação da cidade de Nitherohy.

Quarta. O contratante se obriga a executar o quadro no prazo improrrogavel de dous annos e seis mezes.

Quinta. O quadro será pintado pelo proprio contratante, em téla de linho, sem costura e de primeira qualidade.

Sexta. Todas as despezas com a execução do quadro correrão por conta do contratante.

Setima. Ao contratante, a Prefeitura Municipal de Nitherohy, se obriga a quantia de 10:000$ em tres prestações, sendo a primeira de 3:000$ no dia em que for apresentado o croquis; a segunda de 4:000$ em prestações semestraes de dous contos de réis cada uma, a contar da data da apresentação do croquis; a terceira de 3.000$, quando o quadro for collocado no salão.

Oitava. Se o contratante faltar ao cumprimento de qualquer das clausulas do presente contrato, ficará este nullo e obrigado a restituir aos cofres da Prefeitura o que tiver recebido e mais a multa de 1:000$, sem direito a indemnização alguma por despezas que haja feito.

E como assim o contrataram, para constar lavrou-se o presente termo de contrato escripto por mim, Manoel Antonio Nunes, official da Contabilidade da Prefeitura, assignado por ambos os contratantes e testemunhas abaixo. Em tempo se declara que as dimensões de 2m,50 por 3m,50 a que allude a clausula segunda referem-se ao quadro e não sómente á téla.

Nitherohy, 24 de Agosto de 1907. - João Pereira Ferraz, Prefeito. - A. Parreiras. Como testemunhas: José Luiz de Ararigboia Cardoso. - José Antonio da Silva."

Fonte: Sobre os Serviços Municipaes a Cargo da Prefeitura de Mictheroy, apresentada á Camara pelo Prefeito Dr. João Pereira Ferrás, em Novembro de 1907.


Notas nos jornais:

    "O prefeito deste municipio visitou hoje o atelier Parreiras, onde se demorou cerca de uma hora a examinar o croquis do quadro de Ararigboia, cuja execução foi confiada a nosso ilustre patrício, mostrando se inteiramento satisfeito." (O Fluminense, 31 de julho de 1907)


    "Antonio Parreiras, o brilhante paysagista nacional, já tem idealisado a grande téla, encomendada pela prefeitura municipal, que terá como titulo - Martin Affonso de Sousa, o Ararigboia e sub-titulo Fundação da cidade de Nictheroy. O quadro será concluido dentro de dois annos e custará apenas ao municipio dez contos de reis.

    Parreiras fez um preço razoavel attendendo ser filho desta cidade e desejando dotar a sua cidade natal com uma grande téla historica. Esta tela e a que se denominará "A Morte de Estacio de Sá" serão pintadas na Europa.

    Parreiras dentro de alguns dias partira para o Estado do Amazonas onde vae fazer entrega do seu quadro "A Conquista do Amazonas" e de la seguirá directamente para Europa, onde pretende demorar-se cinco ou seis annos. A sua exm. familia partirá no meado do proximo anno, afim de se encontrar com o nosso laurendo conterraneo." (Jornal 'A Capital', 20 de dezembro 1907)






SÉRIE: ARARIBOIA DE PARREIRAS

01 - Introdução
02 - A Encomenda e as Primeiras ideias do pintor
03 - O Contrato
04 - A Cidade Dividida
05 - Fundamentos para a Composição, por Antonio Parreiras
06 - Carta Aberta ao Insigne Pintor Antonio Parreiras, por J. A. da Silva
07 - Petição pede ao prefeito que não aceite o quadro de Parreiras
08 - O Quadro segundo Manoel Benício
09 - Surge Nictheroy, crítica de O Paiz
10 - O Quadro de Antonio Parreiras, por Rubens Barbosa
11 - Manoel Benício responde a Rubens Barbosa
12 - Parreira responde aos críticos





Publicado em 14/08/2021
Museu Antônio Parreiras