A propósito da recente exposição da última obra de arte de Antonio Parreiras, o quadro representando o índio Arariboia, já cristianizado sob o patrocínio de Martim Afonso de Souza, primeiro capitão-mor do Rio de Janeiro, tem-se levantado grande celeuma na imprensa em torno do móvel artístico que induziu o pintor na concepção do seu belo trabalho.

A tela representa o altivo morubixaba dos tupinimós nu, pele de onça ao ombro e ornado de outros atavios selvagens, como atestando a bravura e o valor exemplar da raça brasílica.

O trabalho, segundo opinião dos que já lograram a fortuna de contempla-lo, é belíssimo, como contece com a feitura modelar de quase tudo a que o talento artístico do autor imprime o cunho de sua individualidade de purista da arte.

Essa maneira, porém, admirável e de concepção grandíloqua, de transladar para a tela um tipo varonil de raça aborígene para representar, com sua nudez máscula e seus adornos selváticos, a mais homérica figura de nossos caboclos, feriu de algum modo a susceptibilidade dos que ainda se apegam, como nos tempos farisaicos, à letra da lei.

Efetivamente, a deliberação do Conselho Municipal desta cidade exigiu do laureado artista um retrato do grande ancestral gentio, modelado pelo que existe na Biblioteca Nacional.

É bem possível, e estamos inclinados a assim considera-la, que essa efigie surgida em 1866, não dê ideia alguma da representação típica do estupendo e incomparável chefe da tribo invicta, fundador desta terra.

A nossa tendência, quando à figura em si é favorável à alta concepção do artista, mas o ato do Conselho Municipal limitou a esfera de sua concepcionalidade, por mais genial que seja.

Ao pintor, pediu-se um retrato, mentiroso embora, mas um retrato, aceito já pela tradição.

O artista, porém, levado por seu talento, subiu até a concretização do tipo varonil e histórico.

Exigiu-se a efigie do índio já cristianizado em franca ascensão, mercê da gigantesca luta empreendida, para a civilização implantada nas selvas brasílicas pelos intemeratos marujos das quinas lusitanas.

A obra encomendada tinha por objetivo mostrar às gerações vindouras o mais alto valor do braço selvagem, recompensado pela civilização triunfante.

Mas Parreiras, embebido, arrastado mesmo pela fascinação artística colimada pelo seu talento em homenagem aos pródromos, aos primeiros laivos e perfis da encantadora terra que lhe servia de berço, esqueceu o capitão caboclo galardoado pela tença e pelo vestuário que lhe concedera a munificência do mal aventurado rei lusitano, e embrenhou-se pela noite poética e deslumbradora de sua veneração pelos nossos maiores, pelos mais empolgantes vultos de nossa história, a evocar lendas e narrativas de tantos feitos homéricos, e de lá nos trouxe a sua fulgurante tela donde a figura de Arariboia ressalta e vive, como o mais valente e arrojado de nossos selvagens.

"A serpente da guerra - o rei das selvas", na poesia heroica de Joaquim Norberto.

Se da tela em que Parreiras concretiza a valentia e o renome do ilustre guerreiro americano, fosse mais desenvolvido o âmbito, e não se limitasse só a delinear, num longe esfumaçado, o perfil das ocas selvagens e a imagem do conjunto, representativo do início da construção da igreja dos caboclos; para fazer remontar mais a sua concepção até o limiar da história sem controvérsia, e dar-nos a cooperação representativa dos poucos vultos que tomaram parte naquele ato, bem possível seria que maior messe de louvores tivesse recebido o seu invejável trabalho, embora o vulto de Arariboia, ali surgisse como uma superfetação puramente artística.

Sim, porque o pintor, delimitando a esfera da história e da própria lenda, ateve-se apenas ao primeiro impulso de sua poderosa imaginação, deturpando, porém, a visão histórica na distribuição do que foi abrangido pela sua palheta na feitura do seu belo quadro.

O seu trabalho, de ideia histórica, passou a simples alegoria apoteosadora do arrojado cooperador na obra dos valentes irmãos Corrêa de Sá.

O soberbo painel do notável pintor niteroiense abrange no mesmo surto fatos que se repelem pela disparidade cronológica.

Colocar a figura homérica do índio, invencível ao lado da construção da igreja dos caboclos, no antigo morro do mesmo nome, e hoje de São Lourenço, quando entre a morte de Arariboia e a criação do modesto templo medeiam dezenas de anos, não é querer reproduzir história, nem lenda, mas apenas revestir de poética e artística alegoria o vulto de maior destaque entre os grandes cabos de guerra brasílicos, ao serviço dos governadores da soberba e encantadora terra de Santa Cruz.

É admirável a concepção? Louvemo-la como objeto da arte, mas não como concretização de episódio histórico.

Mais ainda: se os documentos existentes acusam como vestimenta habitual do herói "um colar de frutas secas ou de dentes de animais, uma estreita faixa de algodão a envolver-lhe o tornozelo com o ornato de algumas penas, e à cintura outra faixa de tecido de palha grosseira", porque se foi buscar esse outro atavio, que se vê na tela, com que costumamos sem discrepância, representar os nossos indígenas, embora nem sempre de acordo com as tradições de várias tribos?

Muita razão, portanto, milita a nosso favor quando enxergamos na magnífica tela de Parreiras uma bela alegoria somente.

Posta de parte, porém, a beleza da obra concebida e levada a cabo, é nossa opinião que Parreiras, antes de qualquer outro tratamento artístico, deveria ter dado cabal desempenho à encomenda nos termos do ato legislativo municipal, embora com gravame para a arte, para só depois fazer vibrar o seu intenso amor por Nictheroy, de envolta com a pujança de seu desmedido valor artístico, e de seu alto poder de concepção.

Ricardo Barbosa.

O Fluminense, 10 de dezembro de 1909.


SÉRIE: ARARIBOIA DE PARREIRAS

01 - Introdução
02 - A Encomenda e as Primeiras ideias do pintor
03 - O Contrato
04 - A Cidade Dividida
05 - Fundamentos para a Composição, por Antonio Parreiras
06 - Carta Aberta ao Insigne Pintor Antonio Parreiras, por J. A. da Silva
07 - Petição pede ao prefeito que não aceite o quadro de Parreiras
08 - O Quadro segundo Manoel Benício
09 - Surge Nictheroy, crítica de O Paiz
10 - O Quadro de Antonio Parreiras, por Rubens Barbosa
11 - Manoel Benício responde a Rubens Barbosa
12 - Parreira responde aos críticos








Publicado em 16/08/2021
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