A Prefeitura de Niterói, por meio da Secretaria Municipal das Culturas e da Fundação de Arte de Niterói, lamenta a morte de Sérgio Ricardo, aos 88 anos. Sua carreira, em vários momentos esteve ligada aos movimentos culturais niteroienses, tendo gravado pelo selo Niterói Disco e se apresentado como uma das atrações do Movimento palco Livre, que acontecia no Espaço Cantareira. O artista morava já há alguns anos na cidade. Destaque em movimentos artísticos que redefiniram a cultura brasileira na segunda metade do século XX, como o Cinema Novo e a Bossa Nova, o cantor, compositor, pintor e cineasta Sérgio Ricardo faleceu, aos 88 anos, na manhã desta quinta-feira, 23 de julho de 2020.

Artista com mais de 20 álbuns e 4 longas- metragens em seu currículo, Sérgio Ricardo começou a estudar piano aos 8 anos, no conservatório de Marília (SP), sua cidade natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1952, para trabalhar como locutor na Rádio Vera Cruz. Conseguiu um emprego como pianista junto à banda da boate Corsário, na Barra da Tijuca, e, com o salário ganho, comprou seu primeiro piano. Ainda como João Lutfi, seu nome de batismo, compôs muitas canções para piano, passando a escrever letras e cantá-las. Tornou-se notável como compositor quando a cantora Maysa gravou "Buquê de Isabel", em seu segundo disco. Sua primeira gravação como cantor saiu em um disco 78 rotações pela RGE, com uma música de Geraldo Serafim, "Vai Jangada", muito tocada no rádio em 1958.

Em São Paulo, acompanhando o gaitista Chade em uma apresentação na TV Tupi, Sérgio foi convidado pelo diretor artístico Teófilo de Barros para virar ator da emissora, com a condição de mudar seu nome para Sérgio Ricardo. Embora relutante, aceitou o convite e passou a intercalar os trabalhos de ator e pianista na noite.

Em 1958, Miele o apresentou a João Gilberto na casa de Nara Leão, e fruto dessa amizade, passou a integrar a Bossa Nova, movimento musical que estava surgindo. Em 1960, gravou o lendário LP "A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo", contendo apenas músicas próprias. Seu maior sucesso no disco, a música “Zelão”, protagonizou a polêmica em torno da falta de engajamento social em grande parte das composições bossanovistas, motivo que levou Sérgio a deixar o movimento. Em 1962, ainda participou do histórico Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall de Nova York (EUA), ao lado de Carlos Lyra, Tom Jobim, Roberto Menescal, João Gilberto e Sergio Mendes, entre outros.

Bom contador de histórias, o já consagrado músico tornou-se cineasta. Premiado internacionalmente, realizou os longas metragens - "Esse mundo é meu" (1964), "Juliana do amor perdido" (1968), "A noite do espantalho" (1974) e o mais recente “Bandeira de Retalhos” (2018) - além de alguns curtas, entre eles "Menino da calça branca" (1961) e "Pé sem chão" (2014).

Na TV Record, no III Festival da Canção de 1967, protagonizou o célebre episódio em que quebrou seu violão e o lançou sobre a plateia, motivado pelo som das vaias que o impedia de executar a canção "Beto Bom de Bola".

Em 1984, recebeu o incentivo do pintor Aberlardo Zaluar para frequentar seu ateliê em Niterói. Após o falecimento do amigo, em 1987, Sérgio foi morar na casa dele, em Itaipu, para dedicar-se à pintura.

Em 2019, Sérgio Ricardo se despediu do Theatro Municipal de Niterói com o show “Cinema na Música”, espetáculo que comemorava os 70 anos de carreira do artista. Lançado em DVD e CD em coprodução com o Canal Brasil, e com as participações especiais de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Dori Caymmi e João Bosco, o show apresentou as principais criações do artista para o cinema, campo em que recebeu inúmeras premiações por trilhas sonoras inesquecíveis, como a de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1963), de Glauber Rocha, e de filmes próprios, como "A Noite do Espantalho".

Sérgio Ricardo estava internado desde que contraiu Covid-19, da qual se curou, e sofreu uma insuficiência cardíaca.






Publicado em 15/07/2020
Museu Antônio Parreiras