O Museu de Arte Contemporânea de Niterói faz um convite ao olhar com a exposição de trabalhos de Aluísio Carvão e lone Saldanha, que será aberta hoje, 21 de abril de 2001, às 18h, para temporada de quatro meses. Até 19 agosto, portanto, há muito para ser visto e várias leituras possíveis a partir do acervo exposto, onde a maior parte das obras pertence à coleção João Sattamini, que alimenta as exposições do MAC.

O diálogo desses artistas é riquíssimo e fundamental para a experimentação com a cor na pintura brasileira. As suas obras sempre foram rebeldes aos preceitos ortodoxos do concretismo. Buscavam caminho próprio, onde a expressão individual pudesse vir combinada à geometria abstrata. Através dos bambus de lone e dos quadros de Carvão apresenta-se a liberdade que os artistas fizeram questão de usufruir dentro do movimento neoconcreto dos anos 50. Além disso, trata-se de uma valiosa oportunidade de apreciar a criação de Ione Saldanha, que morreu recentemente.

"É uma pequena homenagem. Ela morreu quando comecei a preparar a exposição", conta Luiz Camillo Osório, curador da mostra e responsável pela área de teoria e pesquisa do museu, que fica na Boa Viagem. Estão sendo expostas cerca de 30 peças de cada um dos artistas. Além do acervo do MAC, há trabalhos das coleções do empresário Roberto Marinho e dos colecionadores Gilberto Chateaubriand e Carlos Alberto Gouvêa. "A cor na obra dos dois artistas é aplicada de maneira muito próxima. E eles constituíram trajetória num mesmo contexto", situa o curador.

Aos 81 anos, o consagrado Aluísio Carvão, nascido no Amapá e radicado no Rio, vem produzindo esparsamente, no apartamento onde vive, em Ipanema. "A exposição também pretende marcar uma recuperação da obra do Carvão", afirma o curador. Osório lembra que em seu trabalho o pintor sempre se destacou pela independência, tal qual lone. "Em pleno neoconcretismo, Carvão mesmo lembra que usava o violeta e surpreendia as pessoas porque a cor não pertencia à paleta utilizada então. Diversas fases da obra dele estão representadas na exposição", diz. "Ione sempre conduziu seu trabalho também sem se vincular a movimentos, não chegando a assinar o manifesto neoconcreto", conta Osório.

Chama a atenção no conjunto referente a lone Saldanha uma peça incompleta acompanhada do estudo do mesma. "É uma bobina de dois metros que ela começou a produzir tentando recompor um trabalho semelhante que foi consumido no incêndio do Museu de Arte Moderna, em 1978, explica o curador. Há também uma série que a artista, nascida no Rio Grande do Sul mas radicada no Rio, produziu especialmente sob encomenda para decorar o restaurante de um hotel na Avenida Atlântica, em Copacabana. E uma série de 24 ripas que, após indevido manuseio por parte do público, foi retirada da decoração e guardada na coleção de Roberto Marinho, dono dos trabalhos.





Aluísio Carvão, nascido no ano de 1920, em Belém do Pará, mas adotado pela cidade do Rio de Janeiro na década de 40, ficou famoso por fazer parte do movimento construtivista brasileiro e por ter assinado o Manifesto Neoconcreto, escrito por Ferreira Gullar em 1959. A coleção Sattamini / MAC-Niterói está muito bem servida de trabalhos do artista. Diversas fases de sua obra estão aí representadas, inclusive sua etapa inicial, pré-concretista, em que a pintura de Van Gogh, vista ainda menino de colégio em precárias reproduções, mostra-se presente.

O desenho expressivo e a predominância dos amarelos remetem ao mestre holandês. Todavia, será no início dos anos 50, em contato estreito com Ivan Serpa e o Grupo Frente, que a obra de Carvão tomará direção própria. Àquela altura, nossas potencialidades como país se atualizavam, ganhando uma forma singular. Apesar de usar tinta automotiva, normalmente trabalhada com pistola, Carvão jamais deixou de lado os pincéis. A lógica formal concretista buscava exatamente superar qualquer vínculo artesanal, tudo que expressasse uma emoção pessoal.

Carvão conta que foi acusado por concretistas mais radicais de ser um artista surrealista, pois usava a cor violeta. Exageros de época à parte, havia um compromisso inexorável com uma certa ortodoxia poética que não se encaixava na personalidade de Carvão.

Catálogo de Aluísio Carvão




Ione Saldanha nasceu no ano de 1919, em Alegrete - Rio Grande do Sul. Apesar de gaúcha, de uma família de militantes como os Saldanha, sua poética é essencialmente lírica. A cor é o ponto de encontro entre sua alma e as coisas. As pinceladas têm o tom de sua voz, sempre precisa e miúda, mas com uma capacidade expansiva incomum.

Aí entra o seu rigor. Um rigor que não abre mão da precariedade, da hesitação, de um deixar ser que sabe o que quer. Ione é uma artista mediterrânea, solar, que mantém contato com um mundo ainda não tocado pela excitação neurótica da cultura norte-americana. Esta é sua vantagem e sua defasagem, ou seja, sua diferença. "A exposição, retrospectiva, procurará realizar um recorte panorâmico em sua trajetória, desde suas figuras e fachadas das décadas de 1940 e 1950, desdobrando-se pelo flerte construtivo no começo da década seguinte, até sua grande aventura de liberação da cor do final dos anos 1960 até a década de 1990", explica o curador Luiz Camillo Osorio.

Neste panorama, o ano de 1969, qualificado pela própria Ione como a "fase em que pintou os últimos quadros", tem papel chave. A partir daí, a artista passou a se aventurar com intervenções tridimensionais, processo criativo que daria origem às séries Bambus, Bobinas e Empilhados, algumas de seus trabalhos mais conhecidos.

Catálogo de Ione Saldanha


Serviço:

"Aluísio Carvão e Ione Saldanha", coletiva
Curadoria: Luiz Camillo Osório
Local: Salão Principal e Mezanino
Abertura: 21 de abril de 2001
Visitação: 21 de abril a 19 de agosto de 2001

Museu de Arte Contemporânea (MAC)
Mirante da Boa Viagem, s/n – Niterói RJ
Informações: 21 2620 2400 / 2620 2481


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Publicado em 18/08/2023

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