O ano de 1997 no Brasil foi, sem dúvida, muito fértil, inovador e rico no campo das artes plásticas. Pelo menos, é isso que se tem certeza quando vemos as obras em exposição na coletiva "Panorama da arte brasileira: 1997", que entra em cartaz, amanhã, 02 de fevereiro de 1998, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

Inaugurada em São Paulo no final do ano passado (e com previsão para ocupar o Museu de Arte Moderna da Bahia ainda neste semestre), a mostra reúne 36 artistas de peso no cenário artístico de nosso país, como Brígida Baltar, Waltércio Caldas, Vera Chaves Barcelos, Ismael Nery, Rosângela Rennó, Tunga, Iran do Espírito Santo, Carlos Zilio, Déborah Paiva, Paulo Pasta, Fernando Lindote, entre outros.

A coletiva que já é uma tradição da capital paulista e do Museu de Arte Moderna de São Paulo - marca a 25ª edição do "Panorama" e ainda os 50 anos de fundação do MAM. Desde 1969, a iniciativa é justamente reunir numa única mostra obras de artistas que tenham se destacado durante o ano e apresentar ao público o resultado desta produção. Já no primeiro ano de existência, o regulamento criado para a mostra, explicava que o objetivo era "reunir permanentemente obras modernas, de alto nível, de artistas de todo o Brasil, a fim de possibilitar ao visitante uma visão global da arte brasileira, facilitando ainda uma variada escolha ao colecionador". Com certeza, durante esses anos, os organizadores vêm seguindo à risca as metas de seus idealizadores.

Diversidade

Com curadoria de Tadeu Chiarelli que também é curador-chefe do MAM de São Paulo, a mostra abrange todos os campos da expressão artística. Instalações, esculturas, pinturas, objetos, fotografias, vídeos, gravuras, performances, desenhos - a diversidade é a característica principal desta coletiva, seja nos suportes, nos temas, nas técnicas, no estilo. E é isso que faz dela uma das exposições mais interessantes que passaram por aqui nos últimos anos. "As obras configuram uma vertente significativa da arte brasileira, não digo que seja a única, mas é uma parcela importante", afirma o curador.

Segundo Chiarelli, seria impossível, por maior que fosse, reunir numa única exposição todos os segmentos e toda a riqueza da arte brasileira. "Não temos a pretensão de ser panorama da arte brasileira, mas traçamos de forma consciente algumas linhas desta produção", desabafa. A solução encontrada por ele, foi "convidar artistas cujas obras, de alguma maneira, atestassem, de modo contundente, os dilemas que o sujeito contemporâneo vivencia hoje, cercado por todas as circunstâncias negativas que caracterizam este final de século e milênio".


Obras de Ismael Nery e Tunga


Dois artistas se destacam nesta efervescência. O próprio curador afirma que a mostra está circunscrita na obra de Ismael Nery e Tunga. "Nery está presente neste Panorama como uma espécie de emblema, ou sinal de uma 'outra' história da arte no Brasil, despreocupada tanto de um viés nacionalista, quanto de um viés apenas formal", escreveu Chiarelli no catálogo de apresentação da mostra. Já a obra de Tunga merece atenção especial, pela síntese que busca entre universalidade e individualidade nos seus trabalhos. "Em seus desenhos, o corpo, sua transcendência, a dor/prazer de seus limites e a memória de suas possibilidades reais ou intuídas, são parâmetros fundamentais", complementa o curador.

A superação de temas e fronteiras antes imprescindíveis para a arte brasileira - como o nacionalismo e a formalidade - são a tônica desta mostra. Os artistas participantes buscam na sua própria vivência e experiência de vida, a inspiração para seus trabalhos. O corpo e a memória são os elementos mais recorrentes nas obras em exposição, seja através de metáforas ou de forma objetiva.

O público pode perceber isso nas fotos de Mario Cravo Neto ("Carlinhos Brown como Exu") e de Rosângela Rennó (série "Cicatriz"), nos desenhos de Tunga e de Ismael Nery, na instalação de Vera Chaves Barcelos ("O que restou da passagem do anjo II"), na instalação/performance de Sonia Labouriau ("Pássaros migratórios") - mas os exemplos não param por aí. Nas viagens que fez pelo Brasil, ao todo 11 estados, Chiarelli percebeu que estes temas eram, de alguma forma, constantes nas obras. "Minha curadoria não partiu de um pressuposto. Foi uma síntese de algo que detectei", conta.

Mesmo usando o corpo e a memória como elementos para seus trabalhos, cada artista usou um meio de explorá-lo. A aglutinação dos trabalhos se dá justamente por esta pluralidade de técnicas e estilos e não por uma linguagem em comum. A incomunicabilidade e a solidão do indivíduo - aspectos marcantes da vida neste final de milênio - aparecem, por exemplo na obra de Keila Alaver. Em "Despelamento tronco de mulher", a artista apresenta diversas partes de um corpo feminino, separados, causando um imediato desconforto ao espectador. Desconforto que faz pensar, é claro.

Na escultura de Brígida Baltar também vemos o corpo como um elemento criador. Dois amantes dentro de um balão de vidro, como se estivessem no útero materno. As fotos de Cravo Neto descontextualizam o corpo como nós o conhecemos, para inseri-los dentro de fantasias e temas que acabam por nos remeter a outros universos.

Rosângela Rennó usou símbolos e marcas corporais de terceiros para criar suas obras. Ela reproduziu digitalmente fotos de prisioneiros que fazem parte do Museu Penitenciário da ACADEPEN (Academia Penitenciária), órgão do Complexo do Carandiru, em São Paulo. As fotos, tiradas entre as décadas de 1920 e 40, retratam detalhes dos corpos de detentos, mais particularmente suas tatuagens.

"Acho que meu trabalho tem mais a ver com a memória, porque este arquivo foi abandonado durante anos. Brinco até que ele fala da amnésia e não da memória. As tatuagens foram fotografadas para serem esquecidas, nunca imaginaram que pessoas de fora à poderiam ter acesso a este material, que foi produzido para fins científicos", conta Rosângela. "Fiz uma apropriação, uma releitura destas fotos, esquecendo as estatísticas da prisão e ressaltando as características estéticas. Já vi fotos deste mesmo estilo em arquivos na Europa e elas não tem o requinte estético das que usei no meu trabalho", acrescenta.

Artistas - Keila Alaver, Pedro Augusto, Brigida Baltar, Vera Chaves Barcelos, Paulo Buennos, Waltércio Caldas, Santiago Vera Cañizares, Mario Cravo Neto, Rogério Ghomes, Hilal Sami Hilal, Sonia Labouriau, Elder Rocha Lima Filho, Fernando Lindote, lolanda Gollo Mazzotti, Fabio Miguez, Rosana Monnerat, Cláudio Mubarac, Elias Muradi, Alexandre Nóbrega, Nazareth Pacheco, Deborah Paiva, Rosana Paulino, Paulo Pasta, Paulo César S. Pereira, Rosângela Rennó, Hebert Rolim, Mônica Rubinho, José Rufino, Cristina Salgado, Del Pilar Sallum, Iran do Espirito Santo, Marta Strambi Tunga e Carlos Zilio


Serviço

Panorama da Arte Brasileira: 1997 - Exposição coletiva de 36 artistas
De terça a domingo, das 11h às 19h
Sábado, das 13h às 21h
De 02 de fevereiro a 22 de março de 1998
Ingresso: R$ 2,00
Entrada franca aos sábados

Museu de Arte Contemporânea de Niterói - Salão Principal, Varanda e Mezanino
Mirante da Boa Viagem, s/n - Boa Viagem


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Publicado em 13/02/2023

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