José Cândido de Carvalho, jornalista, romancista, escritor, cronista, bacharel em Direito, filho de Bonifácio de Carvalho e de D. Maria Cândida de Carvalho, camponeses e pequenos comerciantes tramontanos, nasceu às 16 horas no dia 5 de agosto de 1914, na Rua da Jaca, 22, em Campos de Goitacases, Estado do Rio de Janeiro, vinte e quatro horas depois de irromper a Primeira Guerra Mundial. Aos oito anos, por doença do pai, veio morar algum tempo no Rio de Janeiro, quando trabalhou, como estafeta, na Exposição Internacional de 22. Desses tempos fabulosos da história do mundo, os alegres anos 20, o menino guardou lembranças inesquecíveis.

Em sua terra natal, fez o curso primário, o ginasial e formou-se, em 1937, pela Escola de Direito Clóvis Bevilacqua. Nas férias trabalhava como ajudante de farmacêutico, cobrador de uma firma de aguardente e trabalhador de uma refinação de açúcar. Ao anunciar-se a Revolução de 30, José Cândido trocou o comércio pelo jornal. Iniciou a atividade de jornalista na revisão de O Liberal. Até 1939, foi redator e colaborador de vários jornais de Campos, como "A Folha do Comércio" (onde substituiu Magalhães Júior), "A Notícia", "A Gazeta do Povo", "O Monitor Campista", e depois no Rio de Janeiro, no "Jornal do Brasil".

Em 1939, empolgado com o sucesso dos livros de José Lins do Rego, uma espécie de ciclo da cana de açúcar literário, escreveu e publicou, com capa de Santa Rosa, em Edição de Vecchi, seu primeiro livro " Olha para o céu, Frederico", contando coisas da Terra Goitacá. O romance que não conquistara, na época, o merecido sucesso literário, viria mais tarde a atingir sua quinta edição. Ainda em 1929, torna-se funcionário público federal e continua sua brilhante carreira jornalística. Era redator do Serviço Público Federal por Vasco Lima.

Em 1957, com o fechamento de "A Noite", foi para "O Cruzeiro", onde durante anos chefiou o "copy-desk" da revista. De 1968 a 1970, assinou, em "O Jornal" e em "O Cruzeiro", o "Diário de JCC". Em 1964, vinte e cinco anos depois do primeiro, em Empresa Gráfica " O Cruzeiro" publicou "O Coronel e o Lobisomem", com extraordinário sucesso e comentários e estudos de M. Cavalcanti Proença, Wilson Martins e notar de Rachel de Queiros, traduzido para o francês e incluído nas coleções da Livraria Gallimard. Foi ainda traduzido para o espanhol e o alemão. Era seu livro definitivo. De projeção internacional. "O Coronel e o Lobisomem" conquistou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira de Livro; o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Luísa Cláudia de Sousa, do Pen Clube do Brasil. O livro já conta hoje trinta e quarto edições e uma filmagem.

Em 1970, foi nomeado diretor da Rádio Roquete Pinto. De 1974 a 1976, dirigiu o Serviço de Rádiofuão Educativa do Ministério de Educação e Cultura. Em 1975, foi nomeado Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, gestão que durou até 1984. De 1976 a 1981, dirigiu a FUNART (Fundação Nacional de Arte). Em 1984, assumiu o cargo de Presidente do Instituto de Atividades Culturais de Niterói.

José Cãndido de Carvalho e sua mãe Maria Cândida
Publicou as seguintes obras: "Olha para o céu, Frederico" (1939); "O Coronel e o Lobisomem" (1964); "Porque Lulu Bergantim na atravessou o rubicon" (1971); "Um ninhode mafagafes" (1971); "Ninguém mata o arco-íris" (1972); "Manequinho e o anjo da procissão" (1974), e o "Os Mágicos municipais" (1984). Deixou inédito "O rei Baltasar" e "Os mais curtos contos do País". NO EXTERIOR: "Le colonel et le loup-gerou", trad. Du brésilien par José Gonzáles. Paris Gallimard, 1978 (Col.Dumond entier); "O Coronel e o Lobisomem", Lisboa, Livros do Brasil, s.d; "El coronel y el lobisín", Buenos Aires, 1976, e "Dermoberst um der werwolf", Frankfurt, Am Main, 1979.

Foi casado Duas vezes. Na primeira, com Edeacila Guimarães Carvalho, deixando dois filhos – o Ministro Ricardo Luiz Viana de Carvalho, casado com Marina de Carvalho, e a professora Laura Lione Carvalho dos Santos, casada com o Sr.Luiz Assunção dos Santos. Deixou também cinco netos – Sérgio, Luciano, Isabela, Flávia e Renato. Casou-se, em segundas núpcias, com a museologa e artista plástica Amélia Bezerra de Meneses de Carvalho.

Era o único membro da Academia Brasileira de Letras que morava em Niterói e o único fluminense nos últimos cinqüenta anos, a ocupar uma cadeira na ABL. Teve glória de ser plagiado pelo gênio do teatro que é Dias Gomes. Como se fosse em uma dublagem, a peça "O Bem Amado", de Dias Gomes, que havia sido publicada, em 1960, na revista "Claudia", quando foi televisionada, apresentou um linguajar visivelmente diferente e sugado no livro de José Cândido de Carvalho.

O Odorico Paraguaçu, na primeira versão de "O Bem Amado" (antes da publicação de "O Coronel e o Lobisomem"), era um bacharel que falava corretamente. O Plágio de Dias Gomes aumentou ainda mais a fama do genial romancista da Terra Goitacá. f

Faleceu no Procordis, em Niterói, no 1° de agosto de 1989, às 12 horas e 45 minutos, devido a problemas cardíacos agravados por um edema pulmonar. Membro da Academia Brasileira de Letras, ocupante da cadeira n°31, patronímica de Pedro Luís, eleito em 23/5/73 e empossado em 1°/10/74, foi velado na Academia Brasileira de Letras e sepultado, no dia seguinte, às 11 horas, no Mausoléu das Acadêmicos, no Cimitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. Falaram junto ao túmulo o jornalista Alberto Torres e o Presidente da Academia Fluminense de Letras, Edmo Rodrigues Lutterbach.


José Cândido de Carvalho na ABL



FONTES:
Anuário da ABL;
Morre o "Imortal" José Cândido, "A TRIBUNA" (01/07/89);
Zé Cândido morre sem lançar "O Rei Baltasar", "O Fluminense" (2/8/89);
O limpador da escrita, "Jornal do Brasil" (2/8/89);
Olha para o céu, Niterói, reportagem de Carla Andrade e Ney Reis, JB (5/8/89);
Revista Nacional, do "Jornal do Comércio" de 6 a 12/8/89, e
Sala Fluminense da Biblioteca Estadual de Niterói.


Era Simples, trabalhava devagar e tinha muito talento

Aída de Almeida, para O Fluminense (20/08/1989)

Apesar de ter nascido (ou ter sido inventado como gostava de dizer) em Campos dos Goitacazes, José Cândido de Carvalho poderia tranquilamente ser chamado de mineiro. Gostava de fazer as coisas devagar, inclusive viver. Era simples e não fazia estardalhaço de seu talento. Assim, mineiramente, escreveu "O Coronel e o Lobisomem", traduzido para o francês, o espanhol, o alemão. Mas isso só aconteceu 25 anos depois do lançamento de seu primeiro livro. Ele levou 15 anos pensando no Coronel e mais dez para escrevê-lo.

Valeu a pena, pois foi com esse livro que ganhou o direito de sentar na cadeira a 31 da Academia Brasileira de Letras. Assim, despretensiosamente por 37 votos a favor, nenhum contra. Mineiramente.

Ao longo de 75 anos publicou 8 livros, apenas dois romances, as outras obras são seleções de textos publicados na imprensa e de discursos. Os últimos também curtos na maioria das vezes, para não tomar muito o tempo de ninguém. Principalmente o próprio. O último romance, "O Rei Baltazar", ainda não publicado, estava quase pronto em 1975, só faltando uns retoques e uma licença prêmio para ser terminado.

Passaram-se 14 anos e nada. Para José Francisco Cordeiro, outro campista radicado em Niterói, amigo de infância e de escola - chegaram a dividir a mesma carteira isso faz parte da personalidade de Zé Cândido. "Ele tinha preguiça de escrever correndo", justifica. Se tinha preguiça de seguir um ritmo veloz com a pena, nem por isso deixou de brilhar como jornalista, uma área onde as coisas sempre acontecem correndo. Zé Cândido foi redator de "A Noite", chefiou a equipe de redatores da revista "O Cruzeiro", assinou uma coluna em "O Jornal", chamada, "Diário JCC" e dirigiu a Rádio Roquette Pinto. Além, é claro, de estar sempre presente nas páginas de "O Fluminense".

Zé Cândido não gostava de badalações. Talvez por isso viveu um profundo caso de amor com Niterói, uma pacata cidade quando ele para cá se transferiu há mais de 40 anos. E daqui nunca mais saiu, só ia ao Rio para trabalhar, no mais preferia a tranquilidade do bairro do Fonseca, onde morou até sua morte.

O escritor tinha muitas peculiaridades. Não gostava de almoçar em restaurantes, adorava teatro mas quase não ia, porque isso significava deslocar-se até o Rio, ia ao cinema para dormir no filme, gostava de andar a pé, ginástica só fazia a do tipo mental, adorava livros e era botafoguense. Se pudesse, aboliria as máquinas e a tecnologia, voltava a andar de pincenê, polaina, bengala ou guarda-chuva.

Estranha figura esse José Cândido de Carvalho. Eu não o conheci pessoalmente, mas pela biografia, diria que era capricorniano. Pois não era. Era leonino, se estivesse vivo, teria completado 75 anos, no dia 15 deste mês.





Publicado em 10/05/2014
Museu Antônio Parreiras