por Noronha Santos (1937)

Todas ou quase todas as igrejas coloniais, erguidas aqui e ali, têm no inventário do passado um mundo de recordações a rememorar. Pertence ao número desses santuários a igreja de São Francisco Xavier, erecta numa colina, no Saco de São Francisco, em Niterói, junto à casa conventual outróra ocupada pelos jesuitas e cujo acesso se faz por sinuoso caminho aladeirado.

Está no primeiro lance desse caminho o marco da medição da sesmaria concedida àqueles religiosos. Formado por coluna construída de pedra e cal, de quase três metros de altura, tem a coroá-lo uma espécie de coruchéu. Em sua face anterior, voltada para a formosa enseada de São Francisco, se destacam caracteres apagados da inscrição, conseguindo-se ainda ler o seguinte:





Em trabalho do erúdito desembargador Vieira Ferreira, publicado na Revista do Instituto Histórico, encontra-se nítida fotogravura desse marco, bem como a da fachada da igreja.

Costa Mimoso, cujo nome aparece na inscrição, foi o ouvidor Manoel da Costa Mimoso, que em princípios do século XVIII mandara executar naquela região do recôncavo várias obras de utilidade pública, inclusive uma ponte sobre o rio Guaxindiba, "por ser uma das passagens mais frequentadas por lavradores que vão a embarcar a sua produção nas embarcações".

Esse trecho litorâneo da Guanabara sofreu sensívels alterações topográficas e toponfmicas, em confronto com os termos de lavratura das primeiras sesmarias concedidas por Mem e Estácio de Sá e, sobretudo, através do exame da carta do Rio de Janeiro, copiada por Norival de Freitas de um roteiro manuscrito da Torre do Tombo e reproduzida na Revista do Instituto Histórico, tomo 70, pag. 876 e na História da Colonização Portuguesa, vol. III, pag. 230.

O aspecto do templo é de uma pequena capela - com a mesma contextura e traços acaçapados da maioria dos santuários erguidos nos primeiros tempos da colônia.

Torre, sino, janelas e portas, têm reduzidas proporções. Interiormente, tudo denuncia ancianidade. As paredes, de grandes dimensões, as pesadas portas, as almofadas destas, do estilo jesuítico dos séculos da descoberta e da colonização, os artefactos de marcenaria, trabalhados em madeiras brasileiras estes e, aqueles detalhes oferecem ao visitante a impressão de coisas bem antigas, de velharias históricas, todas dignas de serem carinhosamente resguardadas.

Num dos compartimentos anexos ao templo, é versão corrente haver Anchieta instalado o seu dormitório quando por ali passara. O aposento indicado e romanceado pela lenda apresenta os mesmos traços das construções coloniais, com suas grossas paredes. Sofreu ultimamente algumas obras de reparo e caiação, que lhe não modificaram, contudo, a aparência de cela claustral, das que foram comumente construídas pelos jesuitas em suas casas conventuais.

Embutido na parede da sacristia, desperta atenção um armário de jacarandá, que é, evidentemente, obra de marcenaria histórica, distinguindo-se na parte superior, em algarismos bem visívels, a data 1696 - como assinaladora, ao que dizem, do primeiro centenário da morte de Anchieta. Esse movel tem sido envernizado por vezes e passou em 1906 por cuidadoso reparo, feito a expensas de uma das senhoras da família Fróes da Cruz. Na parede externa, que deita para vasto terreno aos fundos do templo, observa-se, gravado dentro de um quadrilátero, o relógio de sol da casa conventual dos jesuitas, admiravelmente preservado da destruição, notando-se-lhe recentissima .

Encima-o pequena cruz com as iniciais simbólicas I H J - que comprovam a interferência dos padres da Companhia de Jesus no seu risco.

Coube-lhes a prioridade de introduzirem em Portugal e suas colônias os célebres relógios em que as horas e os minutos são indicados pela sombra projetada por um gnomon.

Eram "marcadores do tempo em que a terra gasta para fazer a rotação completa".

Contemplamos há cerca de vinte anos vestígios de um desses interessantes relógios no hospital dos Lázaros, em São Cristóvão, e no paredão da igreja da Penitência, no morro de Santo Antônio. O do hospital dos Lázaros, maior do que o da igreja da Penitência, continha, muito abaixo da haste vertical que marcava as horas, desenvolvida legenda em latim.

A Capela de São Francisco de Xaver à Luz de Documentos

Segundo Monsenhor Pizarro, em suas Memórias Históricas, a capela dos jesuítas foi erguida em anos pouco anteriores ao de 1696, em terras de propriedade da Companhia de Jesus, tomando o historiador como ponto de referência a indicação que se vê no armário existente na sacristia do templo.

Moreira Pinto, no Dicionário Geográfico do Brasil, reproduz por outras palavras o que se lê em Pizarro, adiantando, porém, que, depois da expulsão dos proprietários da fazenda, teve capelão privativo com jurisdição paroquial até se vender as terras, a cujo comprador passou também a capela.

Em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro (tomo 95, vol. 149, da Revista do Instituto Histórico), diz-nos simplesmente Vieira Fazenda que a capela de São Francisco Xavier está situada no Saco de São Francisco ou da Charita, onde existiu antiga fazenda de gado dos jesuítas, que anteriormente pertenceu a Lucas Antunes. No frontispício da ermida estava gravada a palavra Charitas. O povo adulterou a palavra e transformou-a em Charita.

Antônio José Caetano da Silva, em seu minucioso trabalho publicado no tomo LXVII- 2ª parte da Revista do Instituto Histórico, sob o título "O Estado do Rio de Janeiro em 1906", ao tratar de Jurujuba, 6.º distrito do município de Niterói, escreve: "No extremo oriental do município. Sob a invocação de N. S. da Conceição da Vargem, elevada a fregueria por lei provincial n. 208, de 23 de maio de 1842, sendo a sede estabelecida no arraial que existia na fazenda dos jesuitas, situada na pitoresca enseada de Charitas, vulgarmente conhecida por Saco de S. Francisco, extremado pelos morros de Jurujuba e Cavalão. Ali se encontram as capelas da Conceição e a de S. Francisco e o velho convento do mesmo orago, construido em fins do século XVII".

Em 1868 fol transferida a matriz para a igreja de S. Francisco Xavier, trasladando-se o sacrário da capela de N. S. da Conceição da Vargem, que se acha atualmente em completa ruina.

Tudo faz acreditar na anciania da capela erguida pelos jesuitas na pitoresca colina do Saco de S. Francisco e talvez construida em período muito anterior a 1696. Não se tem, no entanto, notícia de nenhum documento pelo qual se possa determinar a época exata da sua fundação.

Extensa é a bibliografia anchietana e bem apreciavel a documentação acerca do sequestro dos bens dos jesuitas, em virtude de determinação do governo da metrópole.

As cartas de Anchieta são as primícias da historiografia brasileira, assim o diz Max Fleiuss. Além do magnífico estudo do douto secretário do Instituto Histórico, publicado por ocasião do 4º Centenário do nascimento do grande apóstolo, são excelentes fontes de consulta:

a) Livro de registro das cartas dos padres da Companhia de Jesus sobre o Brasil (1549-1586) oferta feita à Biblioteca Nacional pelo Conselheiro Lara Ordonez;

b) Revista do Instituto Histórico tomos II e III - Januário da Cunha Barbosa;

c) Anais do Rio de Janeiro - Baltazar da Silva Lisboa.

d) Cartas jesuitioas - Cartas e informações - Fragmentos Históricos e Sermões (1554-1594) - Edição da Academia Brasileira do Letras.

e) Materiais e Achegas - Vale Cabral e Capistrano de Abreu.

Não se lê em nenhuma das cartas escritas por Anchieta para a casa dos religiosos da Companhia, em Lisboa, aos provincials da Ordem, ao governo português e aos irmãos lololistas, a mais aligeirada referência, sequer, sobre a capela que houvesse planeado ou erguido o notável catequista no Saco de S. Francisco.

É, todavia, possível que, em suas peregrinações, ele deixanse a aldela de S. Lourenço, dos Índios teminimós chefiados por Ararigboia, e se internasse até o recanto niterolense, ali assentando alicerces de pequena ermida como um dos marcos assinaladores do seu apostolado.

No ativo de inestimaveis serviços do padre José de Anchieta, inscreve-se, todos o sabem, a fundação do teatro brasileiro, no Rio de Janeiro. Simão de Vasconcelos registra a efeméride em 1555. Divergem do autor da Crónica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil vários autores, que se referem ao estabelecimento dos tablados jesuíticos de 1560 a 1570.

Anchieta fez representar, de fato, na aldeia de S. Lourenço a pregação universal, posteriormente a outro trabalho também de sua lavra, que fora ouvido no tablado de S. Vicente. Para o teatro dos índios de S. Lourenço compusera o missionário enredos e missões de moral cristã, como o Mistério de Jesus a mais notória de suas produções.

Representava - como quer Max Fleiuss (Dicionário do Instituto Histórico - vol. 1º), - a luta de três demônios: Guaicara, Savarana e Aimbiré, que tentavam destruir a nascente aldeia católica, semeando o pecado e abalando a fé nativa dos gentios, mas vencidos por S. Sebastião e S. Lourenço. Estes santos entravam em cena escoltados por anjos luminosos, potências celestiais e anjos da guarda do nascente al delamento indígena.

Havendo ali se demorado, não é de admirar procurasse Anchiets aquele recanto das águas guanabarinas impelido pelo desejo de conhecer o matagal esbraseado e as tentações da natureza e para estender a assistência religiosa aos índios ainda arredios da convivência civilizadora.

"Na evangelização cristã aos silvícolas da Pindorama, escreve o Dr. Freire de Carvalho Filho (O Estabelecimento de Governo Geral - Os primeiros Jesuitas), penetrou Anchieta nas matas virgens, galgou montes e serras, desceu vales, atravessou rios, lagoas e paues, nada lhe obstando em seu santo ideal, que tinha como seu dever de civilizar os naturais desta terra, que já se denominava de Santa Cruz.

Viveu com os tupinambás da Baía, com os aimorés em Porto Seguro, com os tupinamquins no Espírito Santo, com os tamôios no Rio de Janeiro, com os maramonis em S. Vicente e com os guaianazes em S. Paulo, a todos ensinando a religião da verdade e da virtude, do amor e da caridade para com o próximo".

Em torno da figura abnegada do apóstolo do Novo Mundo - seduzindo o gentio e domando as feras a iconografia anchietana com pôs um quadro - dos que mais popularizaram o missionário jesuíta. A gravura da coleção Barbosa Machado, da nossa Biblioteca Nacional, é de 1626, com a seguinte legenda: Venerabilis P. Joseph Anchieta e Societate Jesu.

Impressa nos Anais da Biblioteca, fol reproduzida na revista - Arquivo do Distrito Federal (número de Janeiro de 1894).

Anchieta, em corpo inteiro, ocupa o centro do painel. Um jaguar lambe-lhe docilmente os pés. Ao redor do padre grande - como o chamavam os índios - espécimes da fáuna brasileira. Ao fundo, divisa-se o mar e, ao longe, baloiçando-se sobre as ondas, uma embarcação.

Amansando os bichos da selva e fazendo ouvir os autos dos tablados, o padre José, à semelhança de seus irmãos de glórias e desventuras, estabeleceu aldelas, converteu indígenas, pouco lhe importando as caminhadas penosas a que era obrigado em defesa da causa da paz e da confraternização das tribos dispostas à guerra de extermínio.

Em lugares distantes dos centros de recursos, onde já habitavam, mercadores e malorais da Colônia, fundaram os jesuitas, na Baía, igrejas, povoações e escolas, a doze e dezesseis léguas da cidade do Salvador, lutando com sérias dificuldades para se transportarem por meio de cavalgaduras ou embarcados em frágeis batels.

Muito mais próximo do que aqueles rincões baianos estava a aldeia dos indios de S. Lourenço, para que facilmente pudesse Anchieta irradiar até o recanto da praia de S. Francisco as luzes de sua catequese, all fundando uma ermida, a exemplificar o domínio da fé esplendorosa do cristianismo em terras de Ararigboia.

Qual, porém, a data da construção da igreja?

Minudentes informes a respeito de templos católicos inserem o Dicionário de Milliet de Saint'Adolphe (tradução do Dr. Caetano Lopes de Moura); o relatório do Vice-Rei Marquês do Lavradio (Revista do Instituto Histórico, tomo IV); Mapas gerais das cidades, vilas e freguesias, com suas igrejas (Revista do Instituto Histórico, tomos VII e XLVII); Tradições de Niterói, de Matoso Maia Forte e o trabalho do mesmo autor publicado no Jornal do Comércio, de 24 Maio de 1934 (O Centenário das três cidades fluminenses Angra dos Reis, Campo de Goitacazes e Niterói); os vários números do Almanaque Laemert e o Arcebispado do Rio de Janeiro, de Monsenhor Antônio Alves Ferreira dos Santos.

Nenhuma referência se vê nestes trabalhos sobre a construção da igreja de S. Francisco Xavier, no Saco de S. Francisco, em Niterói. Joaquim Norberto, tão minucioso em sua admiravel Memória Histórica e Documentada das aldeias dos índios da Provincido Rio de Janeiro (Revista do Instituto Histórico, tomo XVII), silencía igual mente no tocante à data certa da ereção da primitiva igreja.

Nos preciosos e erúditos estudos do historiador Costa Ferreira (A Cidade do Rio de Janeiro e seu termo), em cujas páginas há inúmeras referencias ao parcelamento territorial do Rio de Janeiro e de seu recôncavo, abordando o autor variados aspectos dessa expansão e acerca dos jesuitas, não se encontra identificada a sesmaria que compreendia aquela reentrância do litoral da Guanabara.

O inventário e o sequestro de bens dos jesuitas, discriminados no tomo LXIII da Revista do Instituto Histórico e no Arquivo do Distrito Federal (4 volumes, 1894-97), com os arrendamentos, arrematações, avaliações, traslados, alvarás, registros, etc., são inteiramente omissos em relação à propriedade sesmeira do Saco de S. Francisco e à igreja ali erigida.

Não nos parece aceitavel a era de 1696 como assinaladora da construção, ou que esta se tenha realizado - como pretendem Pizarro e Moreira Pinto - pouco antes daquele ano.

A inscrição que se lê no armário existente na sacristia do templo - e que, segundo o vigário da paróquia, foi esculpida para comemorar o primeiro centenário da morte do padre José de Anchieta - evoca provavelmente um dos mais importantes fatos da futura cidade de Niterói. A alegação do pároco contrarfa em absoluto a verdade histórica, clara e insofismavelmente conhecida por todos quantos ocuparam da biografia e da vida do incomparavel jesuita.

Anchieta faleceu a 9 de junho de 1597 em Reritiba ou Iriritiba, depois Benevente e hoje cidade de Anchieta. Os índios carregaram às costas o seu corpo até a vila do Espírito Santo, na distância de quinze léguas, em longa e fúnebre procissão. Depositaram-no na capela de S. Tiago, da igreja dos jesuitas, donde foi posteriormente trasladado para a cidade do Salvador, da Baía, e sepultado no Colégio da Companhia.

No local da capela, atualmente ocupado pelo edificio da Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo, lançou-se a lápide funerária que assinala o primitivo túmulo. É expressivo monumento que à memória de Anchieta levantou o Instituto Histórico daquele Estado, em 1922, sob os auspícios do Governador Nestor Gomes.

Entre as páginas 74 e 75, 90 e 91 do número 7 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (Março de 1934), encontram-se, respectivamente, as gravuras da lápide funerária e da fachada da secular matriz de S. Tiago, com sua torre semafórica e seu belo campanárlo.

Se isto não fosse suficiente para demonstrar à saciedade que a morte do inimitavel evangelizador de nossos indígenas ocorreu em 1597, bastaria a citação de inúmeros autores que confirmam plenamente esse fato. Dos mais autorizados estudiosos do passado que trataram de coisas anchietanas, se distinguiram: Teixeira de Melo (Efemérides Na cionais), Rio Branco (Efemérides Brasileiras), Pedro Calmon, Jonatas Serrano, Teodóro Sampaio, Augusto de Lima e Jorge de Lima, em suas conferências no Instituto Histórico, reproduzidas na obra - Anchieta, - edição da Livraria do Globo, de Porto Alegre.

Aldeia de S. Lourenço

Em terras doadas por Mem de Sá a Martim Afonso de Souza - O índio Ararigbola - terras que foram de Antônio de Mariz, estabeleceu em 1573 o valoroso chefe teminimó a séde da aldeia de S. Lourenço, padroeiro da rústica capela erguida nesse ano pelos jesuitas para o culto e para a catequese dos selvicolas aldeados.

Ao lado da sesmaria do famoso índio e fiel aliado dos portugueses, ficava a que o fidalgo Antônio de Mariz obtivera para compensá-lo da que havia renunciado.

Ao flanco dessa dada de terras fôra concedida uma outra a Jácome Pinheiro, 600 braças ao longo d'água e 800 para o sertão na praia grande, defronte da Lage (Monsenhor Pizarro - Relação de Sesmarias - Revista do Instituto tomo 63).

Matoso Maia Forte o mais reputado sabedor da história da cidade de Ararigboia - localiza essa sesmaria em parte de terras de Icaraí, e admite que as dadas de Cristóvão de Barros e José Adorno ou de Pedro Martins Namorado e Adorno - citadas também no registro de Monsenhor Pizarro se estendessem àquele apraxivel sitio que, segundo o Dr. Teodóro Sampaio (O Tupi na Geografia Nacional), na línguagem dos tamôios - y - carahy - queria dizer água santa.

"Como quer que seja - acrescenta o historiador fluminense - o certo é que nessa sesmaria (a de Jácome Pinheiro), que precedia à de Ararigboia, se fundou a capela de S. João de Cari-y, em 1660, em um morro próximo ao campo da fazenda do mosteiro de S. Bento". Este lugar a que denominavam da "Pedra", pouco distava da praia de Cari-y - escreve Pizarro, em suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro, tomo 3º.

"Foi esta capela que serviu de sede à paróquia criada pelo alvará de 18 de Janeiro de 1696 - a qual é a mais antiga de Niterói - pondera Matoso Maia porque a de S. Lourenço data de 1758, ainda que a existência de sua igreja fosse do tempo de Ararigboia".

Estabelecida a paróquia de São João Batista de Icaraí em 1696, parece natural que na antiga capela do Saco de S. Francisco, localizada embora um pouco distante, mas no perímetro da recém-criada vigararia, ficasse assinalado aquele ato da autoridade eclesiástica. Cuidaram, de certo, os jesuitas, donos da fazenda de gado e da capela de S. Francisco Xavier, de inscrever de forma indelevel, indestrutivel, a era que marcaria o inicio de nova ordem de coisas. Daí figurar até os nossos dias a data 1696 - num movel colocado na sacristia e onde se guardam paramentos e outros objetos do culto.

Aceita como provavel a hipótese aqui formulada, e, consequentemente destruída mais uma vez a descabida alegação de que ocorrera em 1696 o primeiro centenário do falecimento de Anchieta, fica, ainda assim, mantida a dúvida sobre a data verdadeira da fundação da capela jesuítica.

Tendo-se procedido à medição da sesmaria dos jesuítas durante a ouvidoria de Manoel da Costa Mimoso, que exerceu o alto cargo nos primeiros anos do século XVIII, se nos afigura fora de controvérsia que a concessão ou transmissão da dada àqueles religiosos deve remontar a época muito anterior, discriminando-se no limiar da centúria setecentista a raia e os rumos da vasta propriedade que, no doutissimo conceito de Vieira Fazenda, pertencera antes a Lucas Antunes.

Este, possivelmente sob a influência dos padres que exerciam bem perto o seu apostolado na aldeia de S. Lourenço, teria consentido e concorrido para a ereção de uma capela, mais tarde anexada à casa conventual. Sem o perigo de incursões do selvagem confederado, que ardera em fúria contra os portugueses, congregaram-se os vizinhos, já libertos do ambiente de violências e dominados pelo entusiasmo e pelo fervor religioso do tempo.

Outros Santuários

Outros pequenos santuários teriam sido erguidos - como testemunhos de sentimentos de colonos e índios.

Remanescente de remotíssima época, ainda se contempla nos arredores uma igreja em ruinaria, sob a invocação de N. S. da Conceição, na enseada de Jurujuba, a três quilômetros do templo de S. Francisco Xavier. O percurso do Saco de S. Francisco até aquela enseada, onde ficam a torre e as paredes esboroadas da frontaria da nave, quase no nível do mar, a uns quinhentos metros da pitoresca capelinha de São Pedro dos Pescadores, pode ser feito em cerca de vinte minutos, em viagem de ônibus.

A semelhança da igreja dos jesuítas, típica é a sua construção, com sólidas e grossas paredes laterais, à sombra de modesto, feio e forte campanário. Ignora-se a data da fundação desse templo, podendo se, entretanto, conjeturar que, como o de S. Francisco, tem ele todos os indícios para que se o considere velhíssima construção colonial, erguida dos últimos anos do século XVI aos primeiros dias da era seiscentista.

Se a capela do Saco de S. Francisco foi erigida pelo padre José de Anchieta, isto só poderia ter ocorrido antes de 1585, pois, nesse ano, por motivo de moléstia e obedecendo à ordem do reitor do Colégio do Rio de Janeiro, o famoso catequista transferira residência para Reritiba, no litoral do Espírito Santo.

Humílimas ermidas do século quinhentista se transmudaram em capelas e igrejas em princípios da centúria da colonização. Exigencias do culto católico e o sensível crescimento de levas colonizadoras, que o destemor e a fé inquebrantavel dos jesuítas alicerçaram e animaram, fizeram desdobrar o cenário da expansão territorial.

Já em do século XVII, aquela região do recôncavo, devido à produção agrícola e ao ativamento de amiudadas pescarias nas piscosas águas de Icaraí e Jurujuba, mantinha intenso intercâmbio comercial com o mercado da cidade do Rio de Janeiro.

Conquistara relevante, importância no trato dos negócios da Capitania, favorecendo-lhe sobremodo a proximidade do grande centro consumidor.

Abrigando os oragos - deuses protetores das famílias que ali se instalaram - suas capelas deveriam ter sido os primeiros marcos da obra de conquista espiritual e de domínio da autoridade.

Não obstante as dúvidas que se opõem à elucidação da verdade histórica, pela deficiência de fontes seguras de consulta podemos afirmar que a igreja de S. Francisco Xavier, situada no Saco de S. Francisco, apresenta flagrantes característicos dos primeiros templos levantados por jesuítas em terras brasileiras.


Francisco Agenor Noronha Santos
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1937

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Publicado em 03/11/2021