por Divaldo de Aguiar Lopes em 1954

Muito pouco se sabe sobre a data da construção desse histórico e legendário forte de nossa cidade.

Tudo que se pode afirmar, sem ser no terreno das hipóteses, data de 15 de julho de 1600 quando os oficiais, da Câmara da vizinha capital, Cláudio Gurgel Amaral, Pedro Barbosa de Sá, Pedro Garcia Pimentel, Miguel Aires Maldonado e Ventura Rodrigues Velho, num gesto de altruísmo, resolveram solicitar da metrópole lusitana recursos necessários para que não permanecesse no abandono das ruínas em que se encontrava.

Houve, também, movida por aqueles senhores, uma subscrição pública, que logrou alcançar a soma de 8.000 cruzados, obtida entre os habitantes das duas margens, que, convencidos da necessidade dessa obra de defesa, não se negaram a contribuir para aquela elevada quantia em relação à época.

Chamou-se, durante muitos anos, "Forte de São Domingos", em homenagem ao patrono da Capela construída, muito antes de 1625, nas proximidades, sob a invocação desse santo, por promessa, segundo afirmam, de Domingos de Araújo e sua esposa.

O nome "Gragoatá", batismo também de data ignorada, é corruptela da palavra "Caragoatá", de origem indígena, aplicada à vegetação que crescia abundante no morro que fica a cavaleiro do forte, pois se supõe ter advindo por deturpação prosódica (?) de "Caragoatá" - Gragoatá, que é, também, a designação do trecho de praia ali existente.

Martius confirma pertencer à família das bromeliáceas as denominações indígenas cararoá, "Caragoatá", caraquatá, caroatá, gravatá e curuatá.

Teodoro Sampaio, na sua monografia "O tupi na geografia nacional", informa ser caravatá, caruatá, etc., uma espécie de bromélia cujas folhas secas serviam para tranças e cordas resistentes.

Gabriel Soares de Sousa, em 1587, também descreveu essa espécie de vegetal que os indígenas chamavam, segundo ele, Carautá. Em 1696, sabe-se por "Carta-Régia" que fora ordenado o fornecimento de dinheiro para terminar as obras de reparos do forte.

Aos 17 de novembro de 1698, o empreiteiro das obras, Pedro de Barros, solicitava o pagamento dos trabalhos que ali foram realizados.

Somente depois de 1711, pensou-se, novamente, em rearmar o forte que jazia em pleno abandono, pondo-se, assim, em prática as medidas sugeridas há tempo por Sebastião Caldas.

Sabe-se, por uma relação que fora enviada à Metrópole lusa, por Antônio de Brito Menezes, que o forte de Gragoatá, por ele chamado de Caraguatá, possuía "10 peças de ferro, com 426 balas de vários calibres". Em 1760, estava novamente abandonado e foi reedificado em 1762, pelo Vice-Rei D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão Eça e Melo Silva e Mascarenhas, Marquês do Lavradio, que o achava um importante bastião defensor, e nisso deu ciência em relatório, ao seu ilustre substituto Luís de Vasconcelos e Sousa.

Desde essa época o forte passou novamente a figurar entre as fortificações da baía de Guanabara, tanto que, em 1779, assim ainda era considerado.

É bem curiosa a história desse fortezinho de nossa cidade, pois sempre que se encontra em ruínas, ressurge das cinzas como a Phoenix legendária, para erguer-se dentro de um novo destino. Pouco a pouco, foi sendo desprezado, e, caiu no mais profundo esquecimento quando o mato invadiu as suas ruínas seculares.

Nos momentosos dias que seguiram à abdicação do jovem e impetuoso Pedro I, principalmente em julho de 1831, quando a soldadesca em princípio de revolta percorria, aos berros, as ruas da capital fronteira, rebelião essa prontamente reprimida pela energia do então Ministro da Justiça, Padre Diogo Antônio Feijó, pensou-se em restaurar o Forte de Gragoatá, mas não passou de projeto a ideia, logo abandonada.

Em seguida veio a ordem de ser suprimido, por economia, e não ser julgado útil, segundo a deliberação datada de 24 de dezembro de 1831, o foi então, relegado novamente afogar-se nas ruínas, com os seus canhões imprestáveis e carcomidos pela ação devastadora do tempo, antes tão cuidados pela soldadesca zelosa, que caiava, sempre, as grossas muralhas e ameias para resplenderem pureza, assim como as três guaritas excelentemente dispostas e ainda existentes, donde os sentinelas descortinavam, bem abrigados, olhando, pelas vigias, os movimentos dos navios a serem alvejados, pelos artilheiros, sob sua orientação.

Todas as vezes que um grave perigo ameaçava a baía de Guanabara, o Forte de Gragoatá era lembrado e ressurgia então das ruínas para um efêmero apogeu.

Em 1861, quando navegava em águas do Rio Grande do Sul, o navio inglês "Prince of Wales", naufragou, e a carga, atirada pelas ondas num trecho ermo da costa, fora roubada, fato que provocou um quase conflito entre o Brasil e a Inglaterra, pois o Ministro William Christie, que em nada demonstrava a "fleugma", inglesa, com protestos violentos, subsequentes, à prisão de três oficiais ingleses que promoveram distúrbios, quando alcoolizados, à paisana, na Tijuca, fez o caso tomar proporções imprevisíveis, sendo solucionado com o pagamento, por parte do governo brasileiro, de 3.200 libras: quanto ao caso daqueles oficiais a questão foi arbitrada ao Rei dos Belgas, que nos deu ganho de causa, em setembro de 1864.

Ainda pendente de solução, esse caso cognominado de "Questão Christie", correu que os ingleses, não gostando da resposta do nosso então Ministro Pedro Calmon, apresaram cinco embarcações do Brasil, e aí o Forte de Gragoatá ser restaurado novamente (1863-1864) e posto em estado de alerta, com outras fortalezas, como bastião defensor.

As velhas baterias foram consertadas e, caso não tivesse tomado outra feição como vimos, talvez ele tivesse entrado em ação. A cartela de mármore que se vê sobre o amplo e belo portão de cantaria, foi ali colocada por ocasião dessa citada restauração. Nela se lê, em latim, o seguinte: "A D. Pedro II - Imperador Constitucional Perpétuo Defensor do Brasil. Este monumento comemorou o quadragésimo primeiro aniversário da independência da Pátria, 1863. "

Solucionado o momentoso incidente, foi abandonado o Forte de Gragoatá que seria chamado, mais tarde, a prestar serviços valiosos à República e defender numa luta inglória de irmão contra irmão, a invicta Niterói, isto nos tormentosos dias da célebre intentona que catadupas de sangue de brasileiros provocou. Esse levante ficou conhecido por "Revolta da Armada", e teve início em 6 de setembro de 1893.

Ei-lo então reequipado, impondo os seus canhões (Armstrong, Wairtwoth, Bange, Cresot e Krupp de 70, 32 e 7.5 cm), aos vasos de guerra, distância daquele trecho do litoral que tão heroicamente protegeu, atirando balaços até os canhões ficarem imprestáveis e abrigando o Batalhão Acadêmico que, nele batendo-se, com galhardia, inscreveu na história do fortezinho a sua maior página de glória.

Foi ali também teatro de pungente cena quando, no auge dessa fatídica luta, onde o sangue brasileiro verteu-se num entrechoque inglório, o "Aquidaban", disparou, contra a pequenina fortaleza que, sob o comando do Tenente Edgard Gordilho, o acossava, um "shrapnell que, explodindo dentro do forte, matou, instantaneamente, os acadêmicos Luís Nicanor Lucas e José Pereira de Gouveia, os primeiros a serem estraçalhados: os seus companheiros entreolharam-se impávidos, prosseguiram com mais fúria, como parecendo querer vingar a morte dos seus valentes camaradas.

Dizem, embora sem visos de verdade, que o Marechal Floriano Peixoto, quando ouviu o relato da epopeia desse bastião defensor, dissera arrematando uma frase: "Pintem de verde e Viva à República!".

Depois dessa valorosa atuação, nova fase de abandono cobriu o agora histórico forte, que receberá novo batismo, perdendo o seu secular nome de Graqoatá, para o de "Forte Batalhão Acadêmico". O povo, no entanto, continua chamando-o pela antiga palavra indígena.

Quando o prefeito João Pereira Ferraz, em 1907, ideou fazer uma avenida de contorno, começando na Ponta de Areia e indo até o Saco de São Francisco, chegou-se a efetuar um corte entre o morro e o forte, obra que foi embargada, pois, segundo os técnicos, a referida abertura comprometia a segurança do forte.

Segundo um belo projeto de alguns anos passados, seria transformado em Museu, autêntico relicário de preciosidades do Brasil-República, mais ainda, ostentaria magnifica estátua do fundador da República - Benjamin Constant Botelho de Magalhães, filho desta cidade. Se tal projeto se tivesse concretizado, Niterói possuiria hoje um dos maiores monumentos conhecidos, pois o trabalho dos laureados escultores Modestino Kanto e Honório Peçanha e colaboração do arquiteto Proença Sigaud era digno dos mais vibrantes encômios.

O pedestal teria 50 metros de altura e assento, sobre ele, a figura do fundador da República, medindo 20 metros. Todo o monumento mediria, portanto, 70 metros, pesando cerca de 20.000 quilos. O citado pedestal bela obra de arte - seria toda em granito e mármore nacionais. O portão, com largura de quatro metros por seis de alto, encimado pela bandeira nacional, lindamente trabalhada em mosaico de pedras brasileiras, causaria, sem dúvida, viva admiração a todos.

No "hall", segundo o projeto, haveria artísticos vitrais, exibidores de cenas históricas, com o discurso da Praia Vermelha, onde Benjamin Constant apareceria em vibrante atitude oratória, e a reunião do Club Militar.

Em 1938, o forte foi reparado e convertido o seu interior em jardim público, pela municipalidade que lá colocou bancos a floriu verdes gramados. Aos domingos, grande era o número de famílias niteroienses que afluía ao forte, se deliciando em contemplar, das suas grossas ameias, dispostas em ângulos estratégicos, a magnifica vista da bala de Guanabara.

Em 15 de junho de 1940, o Serviço de Meteorologia, ali instalou um posto semafórico, e no velho mastro, onde tremulou a bandeira nos dias da heróica luta, passaram a panejar ao vento, prestando serviços de informações sobre o estado do tempo, bandeiras e flâmulas indicativas.

O mais antigo canhão, completamente carcomido pelo tempo, fora retirado do mar, em 1936, pelos Escoteiros, que o depositaram novamente no forte. Há, também, um buseiro, que ostenta a data de 1861. Será contemporâneo do "Caso Christie"? Vê-se, ainda, algumas balas pertencentes aos canhões que lá existiram e a placa de mármore que foi retirada da casa onde nasceu Benjamin Constant, quando a mesma entrou em ruínas, e para ali levada quando se pensou em convertê-lo em Museu.

Na placa, existe a seguinte inscrição: "Republicae Alma Parens". Nesta casa, então Escola dirigida por seu pai, nasceu em 18 de outubro de 1836 Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o fundador da República Brasileira. Para perpetuar tão excelsa memória a Cidade do Niterói adquiriu a propriedade para nela levantar um jardim de Infância, sob a invocação do seu glorioso filho. Em 18 de outubro de 1904".

Atualmente (1955), o forte é sede do Quartel General do Grupamento Leste da Artilharia de Costa da 1ª Região Militar, que ali se instalou em 23 de outubro de 1939, e comanda as Unidades de Costa sediadas em Niterói.

Esse o préstimo atual desse tradicional e histórico forte de nossa cidade.


Publicado originalmente na Revista Guanabara em fevereiro de 1954
Pesquisa e edição de Alexandre Porto

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Publicado em 29/12/2021