(Memória, 27 de abril de 1986)

"No meu tempo de menino não tinha o nome de Solar. Muito menos de Jambeiro. Era só Casa Grande. De algum modo, mais palácio que o do Ingá. Tenazmente, eu disputava uma oportunidade de entrar para ver o que as altas grades, envolvidas pela vegetação abundante, vedavam à minha curiosidade garota.

Até que um dia, favorecido por um descuido do jardineiro, que deixara o portão mal fechado, penetrei, afinal, no mais ilustre jardim da redondeza. Em meu subconsciente estava ancorada uma visão de castelo europeu no bairro que foi meu berço... Mas durou pouco a euforia do penetra: não havia eu caminhado vinte metros, quando recebi advertência decisiva, em latidos da melhor categoria. Dois cães imensos, orgulho da raça alemã, Mercedes Benz na escala zoológica, partiram contra mim com uma eficiência que só encontrou rival na perfeição da minha fuga. Transformei-me, num minuto, no menino mais veloz de Niterói.

Fluíram os tempos e já estudante de Direito, minha capacidade de admirar estendia-se à família residente, uma legítima comunidade de sangue escandinavo, em que desde logo se conjugavam esbelteza e finura, notadamente na Senhora Bartholdy (1), cortez e corada, invejável naquele seu ar de sanidade, bom vinho e belos modos. Uma senhora integral: de chapéu e luvas.

O enfant-gaté era um certo Egon (2), estudante de medicina em nossa Faculdade Fluminense, para onde viera de sua terra paulista. Era um jovem polido e atlético, dotado pela natureza de todas as condições de êxito entre as moças nativas - as do Ingá e de Icaraí. Mas, nem só a natureza o bafejava: tinha ele um carro esporte motivador. Fez carreira... Hoje aqui o temos, grisalho, nobre e casado. Casadíssimo e com uma criatura que trouxe de São Paulo dinamismo e distinção, virtudes que se completam na simpatia imediata e no poder de liderança. Ao casamento de Egon e Lúcia não faltou o regime de comunhão intelectual. E ei-los a transformarem o Solar histórico numa espécie de Ministério Particular da Cultura, onde realizam não apenas aquele tipo clássico de sarau, reunião em que tudo acaba quando acaba a festa. Não. Nas promoções do Casal, a festa não é fim; é meio. Meio de atingir o necessário, que é também o desejado: a reativação cultural de Niterói e, em certos casos, a recuperação dos valores que sua inteligência produziu. Recentemente, lá se instalou o Movimento Pró Niterói, em que deram as mãos o Poder Público e a iniciativa particular, sob o teto de uma casa em si mesma inspiradora.

Anteontem, debaixo das mesmas telhas venerandas, não jantamos por jantar: pagou cada qual aqueles quitutes, homenageando a poesia de Manuel Bandeira ao som da melodia de Maria Lúcia Godoy e na palavra de Maria Fernanda, para cooperar no financiamento das obras de recuperação do Museu que guarda as criações do niteroiense Antonio Parreiras.

E já se sabe que dentro em breve o alvo será a Casa de Oliveira Vianna. Mais uma reunião particular de utilidade pública. A mesa posta não basta - a festa passa. No vasto campo da difusão da cultura o que se está plantando no Solar não é apenas um pé de jambo... mas uma palmeira real, símbolo vivo do nosso projeto de expansão e grandeza. Niterói precisa e merece engrandecer-se, a começar pela decisão de abrir-se para novos grupos de convívio e intercâmbio, vindos do outro lado da Guanabara ou de onde seja.

E ficarão sabendo o que somos e poderemos ser; o que temos e poderemos ter; o que afinal valemos e poucos sabem. Não faltam ao Prefeito Waldenir de Bragança e a sua equipe, vibração intelectual própria, e o Solar de Lúcia e Egon é polo de atração - mais que uma casa: uma instituição da cultura fluminense, a serviço da reconquista e consolidação do prestígio intelectual da nossa terra. "


O autor

Marcos Almir Madeira (1916-2003) foi Escritor, Cientista Social e Sociólogo nascido em Niterói. Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, dirigiu a Casa de Oliveira Viana, em Niterói, e em 1993 assumiu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Leia mais sobre o Acadêmico niteroiense Marcos Almir Madeira (1916-2003)


Notas:

1) Vera Bartholdy Gad, filha do Casal George e Olga Bartholdy faleceu em 1925.

2) Hugo Einer Georg Egon Falkenberg, dinamarquês de nascimento, nasceu em 1914 e faleceu em 1993.

3) Lúcia Piza Figueira de Mello Falkenberg nasceu em 1925 efaleceu em 1997.





Publicado em 05/05/2021
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