Capítulo 03 da Série "A Niterói que eu vi e a que viram meus avós", de Romeu de Seixas Mattos

Como já disse em outros trabalhos, a evolução da Ponta D'Areia, partindo dos primórdios da sua origem - o desaparecido litoral existente em 1500, a verdadeira "Praia Grande", até encontrar a ilha da Armação (decretos provinciais números 301, de 1842 e 320, de 1855) - formou duas enseadas que foram sendo, inexoravelmente absorvidas pela dinâmica do progresso.

Uma delas, a de São Lourenço, completado o ciclo evolutivo de sua interessante história, no advento do 4º centenário da fundação de Niterói, pode ser evocada como "coisa do passado", ao rememorarmos episódios importantes, que jamais deverão ser esquecidos.

Sem olvidarmos os heróicos tempos em que as pirogas do velho guerreiro Maracaiaguaçu, o "Gato Grande", e da sua brava gente, os temiminós, aqui singravam as serenas "Águas Escondidas", que desapareceram mais tarde no vasto oceano do tempo, até que, acossados pelos tamoios e seus aliados franceses, daqui emigraram para o Espírito Santo, agrupando-se na Aldeia Velha de "Santa Cruz"; sem omissão da grandeza dos feitos de seu filho, o "Cobra Feroz", Arariboia, que para aqui voltou, a pedido de Estácio de Sá e com seu tacape invencível, sua estratégia inata, venceu o "Combate das Canoas", resistiu e derrotou os inimigos quando da "Vingança dos Tamoios", ajudou os portugueses a expulsá-los de Cabo Frio, poderemos destacar a célula embrionária depositada na "Banda d'Além", no Morro de São Lourenço, a montante da futura enseada do mesmo nome que, conservando as características primordiais de invencibilidade, encaminhou um fato posterior que confirma as qualidades essenciais da sua origem.

Assim é que, numa quarta-feira, dia 6 de setembro de 1893, a pacata Niterói tomava conhecimento de irrupção de um movimento sedicioso na esquadra, fundeada na baía de Guanabara, dirigido pelo Almirante Custódio José de Mello, o que haveria de perturbá-la desde logo, alterando todo o seu ritmo de vida: o tráfego das barcas, que pela manhã se fez irregularmente, cessou depois para restabelecer-se após dominada a rebelião, em 19 de março de 1894.

A cidade estava quase indefesa, guardada apenas pelo valor e devotamento de seus filhos; se os dirigentes do movimento conhecessem a verdadeira situação, facilmente dela ter-se-iam apoderado se o intentassem de imediato, transformando-a em seu baluarte.

Não havia talvez uma centena de soldados da Polícia e dos Bombeiros e talvez um pouco menos de uma companhia de soldados do Exército dispondo, todos eles, no máximo de três mil cartuchos embalados, quando estalou a Revolta da Armada, na Baía de Guanabara.

Com tão débeis recursos, o Presidente do Estado do Rio de Janeiro, o Dr. José Thomas da Porciúncula, resolveu resistir aos revoltosos esperando reforço de forças e munições, que só chegaram no dia 9. Na tarde desse dia, 9 de setembro de 1893, Niterói sofreu o primeiro bombardeio, no Quartel de Polícia, iniciado pela canhoeira "Marajó", que fundeara na hoje desaparecida Enseada de São Lourenço, assim posta em evidência.

Começou então o êxodo da população alarmada, da parte central da cidade para os pontos mais distantes dos arrabaldes, para a zona rural e até mesmo para fora do município.

Por espaço de seis meses repetiram-se as hostilidades: fuzilaria e canhoneio flagelaram cidade à luz clara do sol e nas trevas da noite, até que a resistência da cidade celebrizou-se no formidável ataque desfechado pelos revoltosos, na manhã do dia 9 de fevereiro de 1994, por mar e em terra, combate sempre memorável para Niterói, pois nele perderam a vida dezenas de seus defensores, oficiais e praças dos vários corpos, mas alcançando assim o título de "Cidade Invicta".

Comandou pessoalmente esse ataque o Almirante Saldanha da Gama, filho de Campos, que aderira à revolução, depois de manter-se neutro por algum tempo, na Escola Naval de que era diretor, saindo ferido ao fim da peleja.

Em terra, o Comando Geral da Praça estava a cargo do General Francisco de Paula Argolo, sendo o contra-ataque dirigido pelo Coronel Fonseca Ramos, Comandante da Força Policial do Estado, naquela época.

Mas, voltemos à Enseada de São Lourenço.

Embora os aterros para a conquista de acrescidos de marinhas fossem sempre constantes, tanto assim que a área da Rua Marechal Deodoro a partir da Rua Visconde de Sepetiba fosse quase toda aterrada no período de 1908 a 1911, a Enseada de São Lourenço resistiu por muito temро е só teria de desaparecer com a construção do Porto nesse local.

Deixando de parte prováveis projetos anteriores, diremos apenas que em 1913, no Decreto Federal de 26 do março, formalizou-se a iniciativa de construção de um porto, de acordo com estudos e projetos que fossem aprovados.

Nada se fez de positivo nesse sentido, até que o Prefeito Dr. Feliciano Sodré, grande entusiasta desse melhoramento, no trimestre final de 1911, mandou levantar a planta cadastral dessa enseada, planta que servia de base para o projeto de construção do porto, o qual faria desaparecer a enseada.

Como topógrafo da Prefeitura Municipal de Niterói, tomei parte nesse trabalho e disso tenho várias fotografias, tiradas com o instrumento e a turma, em serviço.

Em 1924, porém, a Assembleia Legislativa Estadual autorizou o Governo do Estado a realizar obras para o saneamento completo da enseada, tornando-a acessível à navegação de cabotagem.

Estudado e organizado o Plano, o Governo Fluminense deu-lhe sua aprovação em 31 de outubro de 1926, mas antes, em 7 de setembro, foi comemorado o aniversário de Independência do Brasil com o lançamento da pedra fundamental das obras que iriam ser iniciadas (era nessa época Presidente do Estado o Doutor Feliciano Pires de Abreu Sodré, sendo o Dr. Pio Borges o seu Secretário da Agricultura e Obras Públicas.

As obras do porto comandadas por uma comissão chefiada pelo Engenheiro-Militar Doutor Heráclito Paes Ribeiro, consistiam: na dragagem de parte da enseada de São Lourenço, à qual dá acesso o canal da Ponta D'Areia, dragado em uma largura de 80 metros, por 8 de profundidade; na dragagem de uma bacia de evolução das embarcações com uma largura de 250 metros; na construção de um cais acostável, de 400 metros de extensão e 8 metros de profundidade; de um outro cais de 1.055 metros de extensão e dois metros de profundidade nas águas mínimas; no aterro da área compreendida entre o cais e a antiga linha do litoral (já não mais a linha do litoral de 1500, é bom lembrar), com terras obtidas pela dragagem de parte da enseada e as provenientes do desmonte do Morro da Rua Dr. Celestino e de parte do morro onde estava o Palácio Episcopal, isto é, o antigo Palácio que foi da Baronesa da Soledade (Palacete da Soledade), onde agora existe um Seminário, e, finamente; na construção de Armazéns para o serviço portuário, servidos por linha férrea, sendo desapropriados os prédios e terrenos compreendidos no Plano de Obras.

Para a área conquistada ao mar, na zona da enseada de São Lourenço, foi feito um projeto de arruamento apresentando o traçado a forma de um leque tendo os raios concentrados numa praça, onde a Leopoldina Railway construiu uma estação de embarque e desembarque de passageiros, em 30 de setembro de 1930, próxima ao cais, cujo primeiro trecho fora inaugurado em 21 de dezembro de 1927. As ruas circulares concêntricas, traçadas no plano, começam e terminam na grande avenida Feliciano Sodré, a qual prolonga a Alameda São Boaventura até o mar na Rua Visconde do Rio Branco, formando as duas uma via pública de 5 quilômetros de extensão, com a largura de 30 metros.

Com essas obras ficou a cidade acrescida de novas áreas para edificações, tanto na zona do porto como na zona do desmonte dos morros da rua Dr. Celestino e do antigo Palacete da Baronesa Soledade.

O desmonte do morro da Rua Dr. Celestino foi iniciado quando o Dr. Feliciano Sodré era Prefeito Municipal, aterrando-se primeiramente a área próxima, conhecida como Campo Sujo, em 1912 mais ou menos.

Atualmente, uma parte da área aterrada da enseada de São Lourenço recebe o trevo que existe no final da Ponte Rio-Niterói, e foi feito um aterro ligando ao continente a Ilha da Conceição, ilha que em tempos idos pertenceu João Peres Louro.

Se continuarem os aterros, desaparecerá também o estreito que o mar fazia no lugar onde estava colocado, no pé de um morro, o marco divisório entre a Sesmaria de Arariboia e a segunda Sesmaria de Antônio de Marins, conforme referência que consta na "Escritura de Transição e Amigável Composiçãο que fizeram os Padres da Companhia de Jesus com os Moradores do Rio Maraguhy da Banda D'além", em 20 de julho de 1656.

Nota: Quando foram publicados pelo O Fluminense meus outros artigos, telefonaram-me pessoas que fizeram gentis observações. Gostaria que me procurassem, novamente, no sentido de me fornecerem informações esclarecedoras ou renovadoras das minhas recordações e deduções, como é o caso da veneranda senhora que residia na Ponta d'Areia ou da outra que, menina, brincava com as conchas do Monte D'Ouro.




Nota da Edição

1 - A Enseada ou Saco de São Lourenço começou a ser aterrado ainda na primeira metade do século XIX para a construção da Casa de Correção, a Cadeia da Vila, na hoje rua São João. Alguns anos depois para a criação da Praça do Chafariz, hoje o quarteirão do Abrigo dos Bondes, e o prolongamento da rua do Imperador, hoje Marechal Deodoro, até a Marquez do Paraná.

2 - O saneamento do Campo Sujo, citado pelo autor, permitiu a construção da Praça da República e o Centro Cívico, conjunto de prédios públicos que a cercam, como a Biblioteca Pública, o Palácio da Justiça, o Liceu Nilo Peçanha, a Assembleia Legislativa, hoje Câmara Municipal, e o Palácio da Polícia.

Publicado originalmente em O Fluminense, em 04 de novembro de 1973
Pesquisa e Edição: Alexandre Porto



Índice do Niterói que eu vi e que viram meus avós

O Monte D'Ouro
O morro que foi ilha
A Enseada de São Lourenço
Derivativos para a falta de divertimentos


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Publicado em 15/05/2024

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